O APEGO MATERIAL NOS PRENDE À DECOMPOSIÇÃO CADAVÉRICA

Os companheiros encarnados, em obediência à tradição, atiravam a clássica pazinha de cal sobre o caixão entregue à profunda cova. Impressionado com os soluços que ouvia em sepulcro próximo, fui irresistivelmente levado a fazer uma observação direta. Sentada sobre a terra fofa, infeliz mulher desencarnada, aparentando trinta e seis anos, aproximadamente, mergulhava a cabeça nas mãos, lastimando-se em tom comovedor.

Compadecido, toquei-lhe a espádua e interroguei:

– Que sente, minha irmã?

– Que sinto? – gritou ela, fixando em mim grandes olhos de louca – não sabe? Ajude-me, por piedade! Não sei diferençar o real do ilusório… Conduziram-me à casa de saúde e entrei neste pesadelo que o senhor está vendo.

Tentava erguer-se, debalde, e implorava, estendendo-me as mãos:

– Cavalheiro, preciso regressar! Conduza-me, por favor, à minha residência! Preciso retornar ao meu esposo e ao meu filhinho!… Se este pesadelo se prolongar, sou capaz de morrer!… Acorde-me, acorde-me!…

– Pobre criatura! – exclamei, distraído de toda a curiosidade, em face da compaixão que o triste quadro provocava – Ignora que seu corpo voltou ao leito de cinzas! Não poderá ser útil ao esposo e ao filhinho, em semelhantes condições de desespero. Olhou-me, angustiada, como a desfazer-se em ataque de revolta inútil. Mas, antes que explodisse em rugidos de dor, acrescentei:

– Já orou, minha amiga? Já se lembrou da Providência Divina?

– Quero um médico, depressa! só ouço padres! – bradou irritadiça – Não posso morrer… Despertem-me! Despertem-me!

– Jesus é nosso médico infalível – tornei – e indico-lhe a oração como remédio providencial para que Ele a assista e cure.

A infeliz, entretanto, parecia distanciada de qualquer noção de espiritualidade. Tentando agarrar-me com as mãos cheias de manchas estranhas, embora não me alcançasse, gritou estentoricamente:

– Chamem meu marido! Não suporto mais! Estou apodrecendo!… Oh! quem me despertará?

1001Compreendi, então, que a desventurada sentia todos os fenômenos da decomposição cadavérica e, examinando-a detidamente, reparei que o fio singular, sem a luz prateada que o caracterizava em Dimas, pendia-lhe da cabeça, penetrando chão a dentro. Ia exortá-la, de novo, recordando-lhe os recursos sublimes da prece, quando de mim se aproximou simpática figura de trabalhador, informando-me, com espontânea bondade:

– Meu amigo, não se aflija.

A advertência não me soou bem aos ouvidos. Como não preocupar-me, diante de infortunada mulher que se declarava esposa e mãe? Como não tentar arrancá-la à perigosa ilusão? Não seria justo consolá-la, esclarecê-la? Não contive a série de interrogações que me afloraram do raciocínio à boca. Longe de o interpelado perturbar-se, respondeu-me tranquilamente:

– Compreendo-lhe a estranheza. Deve ser a primeira vez que freqüenta um cemitério como este. Falta-lhe experiência. Quanto
a mim, sou do posto de assistência espiritual à necrópole.

Desarmado pela serenidade do interlocutor, renovei a primeira atitude. Reconheci que o local, não obstante repleto de entidades vagabundas, não estava desprovido de servidores do bem.

– Somos quatro companheiros, apenas – prosseguiu o informante –, e, em verdade, não podemos atender a todas as necessidades aparentes do serviço. Creia, porém, que zelamos pela solução de todos os problemas fundamentais. Apesar de nosso cuidado, não podemos todavia, esquecer o imperativo de sofrimento benéfico para todos aqueles que vêm dar até aqui, após deliberado desprezo pelos sublimes patrimônios da vida humana.

Nossa desventurada irmã permanece sob alta desordem emocional. Completamente louca. Viveu trinta e poucos anos na carne, absolutamente distraída dos problemas espirituais que nos dizem respeito. Gozou, à saciedade, na taça da vida física. Após feliz casamento, realizado sem qualquer preparo de ordem moral, contraiu gravidez, situação esta que lhe mereceu menosprezo integral. Comparava o fenômeno orgânico em que se encontrava a ocorrências comuns e, acentuando extravagâncias, por demonstrar falsa superioridade, precipitou-se em condições fatais.

Chamada ao testemunho edificante da abelha operosa, na colméia do lar, preferiu a posição da borboleta volúvel, sequiosa de novidades efêmeras. O resultado foi funesto. Findo o parto difícil, sobrevieram infecções e febre maligna, aniquilando-lhe o organismo. Soubemos que, nos últimos instantes, os vagidos do filhinho tenro despertaram-lhe os instintos de mãe e a infortunada combateu ferozmente com a morte, mas foi tarde. Jungida aos despojos por conveniência dela própria, tem primado aqui pela inconformação. Vários amigos visitadores, em custosa tarefa de benefício aos recém-desencarnados, têm vindo à necrópole, tentando libertá-la.

A pobrezinha, porém, após atravessar existências de sólido materialismo, não sabe assumir a menor atitude favorável ao estado receptivo do auxilio superior. Exige que o cadáver se reavive e supõe-se em atroz pesadelo, quando nada mais faz senão agravar a desesperação. Os benfeitores, desse modo, inclinam-se à espera da manifestação de melhoras íntimas, porque seria perigoso forçar a libertação, pela probabilidade de entregar-se a infeliz aos malfeitores desencarnados.

Indiquei, porém o laço fluídico que a ligava ao envoltório sepulto e observei:

– Vê-se, entretanto, que a mísera experimenta a desintegração do corpo grosseiro em terríveis tormentos, conservando a impressão de ligamento com a matéria putrefata. Não teremos recursos para aliviá-la?

– Quem sabe chegou o momento? Não será razoável cortar o grilhão?

– Que diz? – objetou, surpreso, o interlocutor – Não, não pode ser! Temos ordens.

– Porque tamanha exigência? – insisti.

– Se desatássemos a algema benéfica, ela regressaria, intempestiva, à residência abandonada, como possessa de revolta, a destruir o que encontrasse. Não tem direito, como mãe infiel ao dever, de flagelar com a sua paixão desvairada o corpinho tenro do filho pequenino e, como esposa desatenta às obrigações, não pode perturbar o serviço de recomposição psíquica do companheiro honesto que lhe ofereceu no mundo o que possuía de melhor. É da lei natural que o lavrador colha de conformidade com a semeadura. Quando acalmar as paixões vulcânicas que lhe consomem a alma, quando humilhar o coração voluntarioso, de modo a respeitar a paz dos entes amados que deixou no mundo, então será libertada e dormirá sono reparador, em estância de paz que nunca falta ao necessitado reconhecido às bênçãos de Deus.

A lição era dura, mas lógica.

(Francisco Cândido Xavier – Obreiros da Vida Eterna – pelo Espírito André Luiz)

SÓ A HUMILDADE NOS TORNA APTOS A QUALQUER TRABALHO DIGNO

Alcione, jovem governanta na casa dos Davenport, era obrigada a tratar de todos os demais serviços leves da casa, inclusive a costura, porquanto Dona Susana não tolerava a sua postura de moça simples e amável, e procurava um pretexto para despedi-la. No entanto, Alcione estava sempre calma e disposta a ceder aos seus caprichos com suave humildade, humildade esta que causava irritação em Susana. Por mais que elevasse a voz, em ordens intempestivas, Alcione tratava-a respeitosamente, em atitude de nobre serenidade.

Acrescentando-lhe outras ocupações, além dos deveres de governanta e preceptora, certa vez, Susana lhe disse com tom impositivo:

— Alcione!
— Senhora!…
— Hoje é necessário que substitua a lavadeira, que se encontra doente.
— Sim, senhora, vou agora mesmo ao tanque lavar as roupas.

— Beatriz, a filhinha de Susana, que a tudo ouvira, não se conformara coma atitude da mãe, e procurou o pai (o Sr. Davenport), dizendo-lhe:

— Papai, a mamãe vive perseguindo Alcione. A pobre coitada tem que fazer serviços pesados, e isso não é tarefa para ela.

— Obrigado, filha, por me alertar. Vou já advertir tua mãe.

1000Momentos depois, Alcione, ao ver a Sr. Susana chorando por ter sido censurada em suas atitudes, de imediato procurou o senhor Davenport, e disse-lhe em tom delicado:

— Meu senhor, desculpe a intromissão, mas a pequena Beatriz equivocara-se. Não foi Dona Susana quem me mandou substituir a lavadeira. Eu mesma, sabendo que ela adoecera, me ofereci para a lavagem de roupa. Não se preocupe, pois sou bastante habituada aos serviços gerais.

Beatriz não entendeu bem a atitude de Alcione, que lhe explicou:

— Beatriz, não pense que a lavagem de roupa é um serviço pesado. É tão sagrado para todos nós como qualquer outro serviço.

— Mas Alcione, nós temos criadas que cuidam disso, não é serviço teu.

— Minha querida, devemos estar aptos para qualquer trabalho digno.

— Mas a cada serviçal cabe a sua tarefa, não é?

— E não está errada ao pensar assim. Contudo, ao agirmos de maneira solícita, estaremos ampliando as nossas experiências em qualquer trabalho honesto. Sei que você aprecia as lições de Jesus, não é? Pois bem! O Mestre Divino carpintejou na modesta oficina de Nazaré, foi exegeta da Lei perante os doutores de Jerusalém, serviu o vinho da amizade nas bodas de Caná, foi médico da sogra de Pedro, enfermeiro dos paralíticos, guia dos cegos, amigo das crianças, e também servo dos discípulos, quando lhes lavou os pés no cenáculo. E nada obstante o contraste e a diversidade de tantas tarefas, Jesus nunca se ausentou do lugar sublime que lhe compete na Criação, nem deixou de ser o nosso Salvador, em todos os momentos.

Beatriz, filhinha de Susana, entre admirada e comovida, observou:

— Tudo isso é verdade! Como não pude compreender antes?

E, em seguida, começou a ajudar Alcione no trabalho do tanque…

(Livro “Renúncia” – Chico Xavier – pelo Espírito Emmanuel)

A NECESSIDADE NOS ENSINA GENTILEZA E DOÇURA

Alcione e seu irmão, a fim de angariarem recursos ao próprio sustento, tateavam singelo violino e cantarolavam para os transeuntes da via pública. Então, quase ao fim do dia, o irmãozinho disse:

— É bem duro pedir, não acha, Alcione?

— Não é tanto assim — respondeu-lhe a irmã resignada. A necessidade, Robbie, às vezes nos ensina a afabilidade e a doçura com o próximo. Nunca reparaste que as crianças muito independentes costumam ser caprichosas e ásperas? Assim também, já crescidos, é útil que venhamos a precisar do concurso de outros, por tornarmo-nos mais carinhosos, mais sensíveis ao afeto fraternal…

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— Isso é verdade — concordou o pequeno —, são raros os meninos brancos que me tratam bem.

— É porque ainda não sabem o que é a vida. Se um dia a necessidade lhes bater à porta, compreenderão, talvez imediatamente, que somos todos irmãos. Suponho que Deus, sendo tão bom, facultou a pobreza e a doença ao mundo para que aprendêssemos a sua divina lei de fraternidade e auxílio mútuo.

Robbie, muito admirado, ponderou:

— Desejava sentir essas coisas conformado, assim como te vejo, mas a verdade é que, quando me humilham, sofro muito. Faço enorme esfôrço para não reagir com más palavras e confesso que, por vezes, se não fosse a mão doente, agrediria alguns meninos.

— Não agasalhes esses pensamentos, procura fazer exercícios mentais de tolerância. Reflete, contigo mesmo, como tratarias as crianças negras se fosses branco, imagina qual seria tua atitude com os doentes, se fosses completamente são.

O pequeno violinista meditou longamente e respondeu muito sério:

— Tem razão.

— Sem dúvida, isto que aqui te digo requer muito esforço, porque só o pecado oferece portas largas ao nosso espírito. A virtude é mais difícil.

(Livro “Renúncia” – Chico Xavier – pelo Espírito Emmanuel)

LUTAS MORAIS DE TODOS NÓS

A vida terrestre é uma escola na qual a alma se educa e aperfeiçoa através do trabalho, do estudo e do sofrimento.

Para conservar a alma livre, a inteligência sadia e a razão lúcida, a primeira condição é sermos sóbrios e castos. Noutras palavras, é preciso reduzir a soma das exigências materiais, comprimir os sentidos e domar os apetites vis, porquanto a sobriedade e a continência caminham juntas, mas os prazeres fugidios da carne amolecem-nos, enervam-nos e afastam-nos do caminho da sapiência.

989A família, o amor da esposa, o afeto dos filhos e a sadia atmosfera do lar são preservativos poderosos contra as paixões inferiores. A luta contra as seduções dos sentidos não são, como querem os mundanos, uma infração às leis naturais, uma mutilação da vida. Ao contrário, revelam profunda compreensão das leis superiores e clara intuição do futuro. O Espírito do voluptuoso consome-se, após a morte, em inúteis desejos.

Quem coloca a felicidade nos prazeres da carne, priva-se por muito tempo da paz de que gozam os Espíritos elevados.

A causa do mal e seu remédio não estão onde geralmente os buscamos. O estudo é fonte de doces e puras alegrias a nos libertar das preocupações vulgares, além de nos fazer esquecer as dores da vida. No entanto, a aplicação dos sistemas educativos, culturais e econômicos preconizados não apresentou, até o momento, senão resultados mesquinhos.

Não basta ensinar-nos os elementos da ciência; tão essencial quanto ler, escrever e contar, é saber governar-se e conduzir-se como ser racional e consciente, apto a enfrentar a vida não só para a luta material mas, sobretudo, para a luta moral.

Se quisermos nos libertar dos males terrenos e fugir às reencarnações dolorosas, guardemos bem esta lei moral: não dê senão o indispensável ao homem material, ser efêmero que terminará com a morte; cultiva com amor o Espírito, que é imortal; afasta-te das coisas perecíveis: honras, riquezas e prazeres mundanos são fumaças! Apenas o bem, o belo e o verdadeiro são eternos.

A virtude consiste, especialmente, na resistência às más inclinações, inclinações estas sempre reveladas na vazão dos impulsos inconsequentes do prazer fugaz, e nos ímpetos reativos do orgulho-ferido.

(Contém trechos do livro “Depois da Morte”, do filósofo Léon Denis)

IDEOLOGIA DE MASSAS FABRICADA

Nas últimas duas décadas, a riqueza material da Terra cresceu mais de três vezes; entretanto, a miséria mundial se multiplicou sete vezes. A implantação do capitalismo e o direcionamento de foco do proletariado para o consumismo são fórmulas psicossociais do emburrecimento popular, mantendo a concentração de capital sob o controle das elites.

O homem que compõe as massas do sistema consumista-egocentrista, uma vez que não conhece a si mesmo e, portanto, não reconhece as próprias paixões é, geralmente, escravizado por elas. A ideologia fabricada pelas elites, através do meio político, implementa e controla os veículos da mídia, de modo a produzir os ideais de massa balizados no consumo, no prazer biológico e nos status de vaidade. Então, um homem que cresceu neste ambiente social, tem as suas atitudes menos dignas justificadas, porque afinal, “todo o mundo faz”.

523Em meados de 1945, no final da segunda grande guerra, tínhamos no Brasil a cultura de massas parcialmente instalada, através de investimentos estatais e privados, operados por empresas familiares. Imprensa, rádio e cinema foram os protagonistas da indústria cultural dos anos 1930/1940. Com formatos e linguagens definidos, estes meios dirigiam-se para o entretenimento e construção de estereótipos de brasilidade e nacionalismo, caracterizando, assim, ideologias fabricadas para o consumo e a exaltação da personalidade, onde o “ter” vem substituir o “ser”.

As pessoas, quando ocupadas em competições de orgulho e hábitos viciosos, consomem mais, estão sempre brigando entre si, e, portanto, sem tempo nem vontade para questionar as raízes do sistema que sustenta as suas paixões. O estado politizou a cultura, construindo as identidades ditas nacionais, como o futebol e o carnaval, que foram muito bem alimentados pelos veículos da mídia, a fim de atender às finalidades de mercado e ideologia do emburrecimento pelo entretenimento, atravessando as culturas brasileiras, da erudita à popular, e fixando-se como elemento fundamental da cultura sensualista e alienada da atualidade.

Aqui, você diria: Mas, será assim tão grande esse constructo ideológico? Vejamos…

O futebol, excelente veículo de distração de massas balizado no ego competitivo, caracteriza muito bem a tão conhecida política do pão e circo dos antigos povos gregos. Não temos hospitais, nem escolas, nem professores decentemente remunerados, mas estamos orgulhosos pelos estádios modernos que exibimos ao mundo. Que importa, se num ranking de quarenta países, o Brasil é o trigésimo nono em educação? Mas estamos muito, muito aborrecidos mesmo porque o Brasil caiu duas posições no ranking da FIFA. Sim, alienação!

Ora, o que pensar, então, destes “esportes” violentos estilo luta livre, que demonstram como estamos identificados com a baixeza deste tipo de entretenimento? O homem que se compraz no próprio atraso, dificilmente consegue se autoavaliar de forma imparcial, porque é na saciação das suas torpezas que ele obtém prazer. As paixões nos impedem de perceber que nem sempre aquilo que gostamos é o que nos traz boas consequências a médio e longo prazo.

O carnaval, que é uma fábrica de incentivo aos excessos de todos os gêneros, é “vendido” pela mídia como um lazer saudável. Os métodos contraceptivos são muito bons para o controle populacional e impedem que um casal tenha uma gravidez indesejada. Mas, será que esse é o ponto? O que pensar dos usos que têm por efeito deter a reprodução em vistas de satisfazer a sensualidade? Talvez, o problema esteja nos excessos que a indústria cultural, através da mídia, e viabilizados pelas nossas fraquezas, engendram no comportamento coletivo.

Feito porcos que gostam de chafurdar no lodo, até que ponto somos manipulados para pensarmos que somos senhores de nós mesmos, e não meros escravos das inclinações que sinalizam o nosso atraso moral?

Quem nos garante que até os partidos políticos das nações não sejam, talvez, “bandeiras” de um partido global único, que antecede a Revolução Industrial, e que nos conduz feito marionetes, dando-nos a “lavagem” que tanto gostamos? Quem poderia afirmar que não estamos, talvez há séculos, sendo iludidos com falsas liberdades de escolha, totalmente inconscientes da realidade, realidade esta que sequer sabemos que existe por detrás do sistema político-fantoche?

Pensemos nisso.

O “TELEFONE TOCOU” DE LÁ PARA CÁ

Eu, André Luiz, achando-me ao lado de Nícolas – antigo servidor do Ministério do Auxílio, aqui em Nosso Lar – ousei perguntar alguma coisa. O companheiro não se fez rogado e esclareceu:

– Estamos prontos; contudo, aguardamos a ordem da Comunicação. Nosso irmão Ricardo está na fase da infância terrestre e não lhe será difícil desprender-se dos elos físicos, mais fortes, por alguns instantes, durante o sono do corpo físico, para encontrar a esposa e os filhos do coração, que estão aqui em Nosso Lar.

984– Mas virá ele até aqui? – indaguei.
– Como não? – revidou o interlocutor. – Nem todos os encarnados se agrilhoam ao solo da Terra. Como os pombos-correio que vivem, por vezes, longo tempo de serviço, entre duas regiões, espíritos há que vivem por lá entre dois mundos.

E, indicando o aparelho à nossa frente, informou:

– Ali está a câmara que no-lo apresentará.
– Por que o globo cristalino? – perguntei, curioso. – Não poderia manifestar-se sem ele?
– É preciso lembrar – disse Nícolas, atenciosamente – que a nossa emotividade emite forças suscetíveis de perturbar. Aquela pequena câmara cristalina é constituída de material isolante.
Nossas energias mentais não poderão atravessá-la.

Era chegado o momento. Verifiquei, no relógio de parede, que estávamos com quarenta minutos depois da meia-noite. Notando-me o olhar interrogativo, disse Nícolas em voz baixa:

– Somente agora há bastante paz no recente lar de Ricardo, lá na Terra. Naturalmente, a casa descansa, os pais dormem, e ele, em a nova fase, não permanece inteiramente junto ao berço…

Não lhe foi possível continuar. O Ministro Clarêncio, levantando-se, pediu homogeneidade de pensamentos e verdadeira fusão de sentimentos. Fez-se grande quietude e Clarêncio disse comovedora e singela prece. Em seguida, Lísias, filho de Ricardo, se fez ouvir na cítara harmoniosa, enchendo o ambiente de profundas vibrações de paz e encantamento.

Logo após, Clarêncio tomou novamente a palavra:

– Irmão – disse -, enviemos, agora, a Ricardo a nossa mensagem de amor.

Observei, então, com surpresa, que as filhas e a neta da senhora Laura, acompanhadas de Lísias, tomavam posição junto dos instrumentos musicais. Judite, Iolanda e Lísias se encarregaram, respectivamente, do piano, da harpa e da cítara, ao lado de Teresa e Eloísa, que integravam o gracioso coro familiar.

As cordas afinadas casaram os ecos de branda melodia e a música elevou-se, cariciosa e divina. Sentia-me arrebatado a esferas sublimes do pensamento. Lísias e as irmãs cantavam para seu pai maravilhosa canção, composta por eles mesmos.

Muito difícil frasear humanamente as estrofes significativas, cheias de espiritualidade e beleza, mas tentarei fazê-lo para demonstrar a riqueza das afeições nos planos de vida que se estendem para além da morte:

Pai querido, enquanto a noite traz a benção do repouso,
Recebe, pai carinhoso, nosso afeto e devoção!…
Enquanto as estrelas cantam na luz que as empalidece,
Vem unir à nossa prece a voz do teu coração.

Não te perturbes na estrada de sombras do esquecimento,
Não te doa o sofrimento, jamais te firas no mal.
Não temas a dor terrestre, recorda a nossa aliança,
Conserva a flor da esperança para a ventura imortal.

Enquanto dormes no mundo, nossas almas acordadas
Relembram as alvoradas desta vida superior;
Aguarda o porvir risonho, espera por nós que, um dia,
Volveremos à alegria do jardim do teu amor.

Vem a nós, pai generoso, volta à paz do nosso ninho,
Torna às luzes do caminho, ainda que seja a sonhar;
Esquece, um minuto, a Terra e vem sorver da água pura
De consolo e de ternura das fontes de “Nosso Lar”.

Nossa casa não te esquece o sacrifício, a bondade,
A sublime claridade de tuas lições no bem;
Atravessa a sombra espessa, vence, pai, a carne estranha,
Sobe ao cume da montanha, vem conosco orar também.

Às derradeiras notas da bela composição, notei que o globo se cobria, interiormente, de substância leitoso-acinzentada, apresentando, logo em seguida, a figura simpática de um homem na idade madura. Era Ricardo. Impossível descrever a sagrada emoção da família, dirigindo-lhe amorosas saudações.

O recém-chegado, após falar particularmente à companheira e aos filhos, fixou o olhar amigo em nós outros, pedindo fosse repetida a suave canção filial, que ouviu banhado em lágrimas. Quando se calaram as últimas notas, falou comovidamente:

– Oh! meus filhos, como é grande a bondade de Jesus, que nos aureolou o culto doméstico do Evangelho com as supremas alegrias desta noite! Nesta sala temos procurado, juntos, o caminho das esferas superiores; muitas vezes recebemos o pão espiritual da vida e é, ainda aqui, que nos reencontramos para o estímulo santo. Como sou feliz!

A senhora Laura chorava discretamente. Lísias e as irmãs tinham os olhos marejados de pranto.
Percebi que o recém-chegado não falava com espontaneidade e não podia dispor de muito tempo entre nós. Possivelmente, todos ali mantinham análoga impressão, porque vi Judite abraçar-se ao globo cristalino, ouvindo-a exclamar carinhosamente:

– Pai querido, diga o que precisa de nós, esclareça em que poderemos ser úteis ao seu abnegado coração!

Observei, então, que Ricardo pousou o olhar profundo na senhora Laura e murmurou:

– Sua mãe virá ter comigo, em breve, filhinha! Mais tarde, virão vocês, igualmente! Que mais eu poderia desejar, para ser feliz, senão rogar ao Mestre que nos abençoe para sempre?

Todos chorávamos, enternecidos. Quando o globo começou a apresentar, de novo, os mesmos
tons acinzentados, ouvi Ricardo exclamando, quase a despedida:

– Ah! filhos meus, alguma coisa tenho a pedir-lhes do fundo de minh’alma! Roguem ao Senhor para que eu nunca disponha de facilidades na Terra, a fim de que a luz da gratidão e do entendimento permaneça viva em meu espírito!…

Aquele pedido inesperado me sensibilizou e surpreendeu ao mesmo tempo. Ricardo endereçou a todos saudações carinhosas e a cortina de substância cinzenta cobriu toda a câmara, que, em seguida, voltou ao aspecto normal.

(Francisco Cândido Xavier – Nosso Lar – pelo Espírito André Luiz)

REVOLUCIONÁRIO SINCERO

No curso das elucidações domésticas, Judas conversava, entusiástico, sobre as anomalias na governança do povo, e, exaltado, dizia das probabilidades de revolução em Jerusalém, quando o Senhor comentou, muito calmo:

— Um rei antigo era considerado cruel pelo povo de sua pátria, a tal ponto que o principal dos profetas do reino foi convidado a chefiar uma rebelião de grande alcance, que o arrancasse do Trono.

981O profeta não acreditou, de início, nas denúncias populares, mas a multidão insistia. “O rei era duro de coração, era mau senhor, perseguia, usurpava e flagelava os vassalos em todas as direções” — clamava-se desabridamente. Foi assim que o condutor de boa-fé se inflamou, igualmente, e aceitou a idéia de uma revolução por único remédio natural e, por isso, articulou-a em silêncio, com algumas centenas de companheiros decididos e corajosos.

Na véspera do cometimento, contudo, como possuía segura confiança em Deus, subiu ao topo dum monte e rogou a assistência divina com tamanho fervor que um Anjo das Alturas lhe foi enviado para confabulação de espírito a espírito. À frente do emissário sublime, o profeta acusou o soberano, asseverando quanto sabia de oitiva e suplicando aprovação celeste ao plano de revolta renovadora. O mensageiro anotou-lhe a sinceridade, escutou-o com paciência e esclareceu:

— “Em nome do Supremo Senhor, o projeto ficará aprovado, com uma condição. Conviverás com o rei, durante cem dias consecutivos, em seu próprio palácio, na posição de servo humilde e fiel, e, findo esse tempo, se a tua consciência perseverar no mesmo propósito, então lhe destruirás o trono, com o nosso apoio.”

O chefe honesto aceitou a proposta e cumpriu a determinação. Simples e sincero, dirigiu-se à casa real, onde sempre havia acesso aos trabalhos de limpeza e situou-se na função de apagado servidor; no entanto, tão logo se colocou a serviço do
monarca, reparou que ele nunca dispunha de tempo para as menores obrigações alusivas ao gosto de viver. Levantava-se rodeado de conselheiros e ministros impertinentes, era atormentado por centenas de reclamações de hora em hora. Na qualidade de pai, era privado da ternura dos filhos; na condição de esposo, vivia distante da companheira.

Além disso, era obrigado, freqüentemente, a perder o equilíbrio da saúde física, em vista de banquetes e cerimônias, excessivamente repetidos, nos quais era compelido a ouvir toda a sorte de mentiras da boca de súditos bajuladores e ingratos. Nunca dormia, nem se alimentava em horas certas e, onde estivesse, era constrangido a vigiar as próprias palavras, sendo vedada ao seu espírito qualquer expressão mais demorada de vida que não fosse o artifício a sufocar-lhe o coração.
O orientador da massa popular reconheceu que o imperante mais se assemelhava a um escravo, duramente condenado a servir sem repouso, em plena solidão espiritual, porquanto o rei não gozava nem mesmo a facilidade de cultivar a comunhão com Deus, por intermédio da prece comum.

Findo o prazo estabelecido, o profeta, radicalmente transformado, regressou ao monte para atender ao compromisso assumido, e, notando que o Anjo lhe aparecia, no curso das orações, implorou-lhe misericórdia para o rei, de quem ele agora se compadecia sinceramente. Em seguida, congregou o povo e notificou a todos os companheiros de ideal que o soberano era,
talvez, o homem mais torturado em todo o reino e que, ao invés da suspirada insubmissão, competia-lhes, a cada um, maior entendimento e mais trabalho construtivo, no lugar que lhes era próprio dentro do país, a fim de que o monarca, de si mesmo tão escravizado e tão desditoso, pudesse cumprir sem desastres a elevada missão de que fora investido. E, assim, a rebeldia foi convertida em compreensão e serviço.

Judas, desapontado, parecia ensaiar alguma ponderação irreverente, mas o Mestre Divino antecipou-se a ele, falando, incisivo:

— A revolução é sempre o engano trágico daqueles que desejam arrebatar a outrem o cetro do governo. Quando cada servidor entende o dever que lhe cabe no plano da vida, não há disposição para a indisciplina, nem tempo para a insubmissão.

(Livro “Jesus no Lar” Chico Xavier  – pelo Espírito Neio Lúcio)