SOBRE ÉTICA E VERGONHA NA CARA

Em 2012, durante uma corrida na Espanha, o queniano Abel Mutai, medalha de outro nos três mil metros, estava a pouca distância da linha de chegada e, confuso com a sinalização, parou para posar para fotos pensando que já havia cumprido a prova. Logo atrás vinha outro corredor, o espanhol Iván Fernandez Anaya. E o que fez ele? Começou a gritar para que o queniano ficasse atento, mas este não entendia que não havia ainda cruzado alinha de chagada. O espanhol, então, o empurrou em direção à vitória.

Há uma coisa maravilhosa que aconteceu depois. Com a imprensa ali inteira presente, um jornalista, aproximando o microfone do corredor espanhol, perguntou: “Porquê o senhor fez isso?”. O espanhol replicou: “Isso o que?”. Ele não havia entendido a pergunta – e o meu sonho é que um dia possamos ter um tipo de vida comunitária em que a pergunta feita pelo jornalista não seja mesmo entendida – , pois não pensou que houvesse outra coisa a ser feita q não aquilo que ele fez.

1009O jornalista insistiu: “Mas por que o senhor fez isso? Por que o senhor deixou o queniano ganhar?”. “Eu não deixei ele ganhar. Ele ia ganhar.” O jornalista continuou: “Mas o senhor poderia ter ganhado a prova! Estava na regra e ele não notou…”. “Mas qual seria o mérito da minha vitória, qual seria a honra do meu título se eu deisasse que ele perdesse?”.

E continuou, dizendo a coisa mais bonita que eu li envolvendo a questão da ética do cotidiano: “Se eu ganhasse desse jeito, o que ia falar para a minha mãe?”.

É curioso, mas até em assalto a banco, já houve situações em que, com toda a polícia em volta fazendo o cerco, o sujeito não se rende. Então a polícia chama a mãe dele. Ela chega com a bolsinha no braço, e diz: “Sai daí, menino!” E ele sai.

Como mãe é matriz de vida, fonte de vida, ela é a última pessoa que se quer envergonhar. Porque ética tem a ver com decência e vergonha na cara. Não há nada mais vergonhoso do que uma pessoa fugir ou praticar uma atitude vergonhosa diante de alguém que ela ama.

Se houvesse mais afeto entre as pessoas, se houvesse mais preocupação em não desonrar aqueles que nos querem bem, se pudéssemos estender nosso perdão e compreensão para além das nossas próprias famílias, as pessoas de uma sociedade se tratariam com mais fraternidade, e teríamos, provavelmente, uma sociedade melhor, com relações mais honestas.

Em grande medida, quando pensamos em apodrecimento ético, referimo-nos ao ressecamento dos afetos pelo mesquinho interesse pessoal, pelo lucro a qualquer custo. A lógica competitiva e alienada pelo resultado se impõe de tal forma que os meios de se atingir o objetivo acabam sendo sucateados como uma questão menor. Vendo que os outros pensam somente em si mesmos, somos compelidos a nos ocupar apenas conosco.

Sem inclinações a heroicas virtudes e incapazes de transcender nossos próprios umbigos, temos transformado a convivência em sociedade num misto quase insuportável de desconfiança, interesse e, consequentemente, de indiferença e intolerância.

A quem inculpar este resultado, senão a nós mesmos, que buscamos incessantemente esmagar uns aos outros?

(Contém trechos do livro “Ética e Vergonha na cara”, de Mário Sérgio Cortella e Clovis de Barros Filho)

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