UMA SEMENTE DE LOUCURA

Um proprietário de Saint-Loup foi advertido de que uma de suas terras seria expropriada pela Companhia de Estradas de Ferro do Leste. A informação o afetou vivamente. Não podendo suportar a separação de suas terras, deu sinais de alienação mental. Passados alguns dias, saiu de sua casa às três horas da manhã e afogou-se no rio de Combeauté.

Realmente, é difícil suicidar-se por um motivo tão fútil, e um ato tão desarrazoado não pode ser explicado senão por um transtorno cerebral; mas o que teria produzido esse transtorno? O fato da desapropriação do terreno? Mas, então, por que não se tornam loucos todos aqueles cujas terras são desapropriadas? Dirão que é porque nem todos têm o cérebro tão fraco. Então, admitis uma predisposição natural à loucura; e não poderia ser de outra forma, já que a mesma causa nem sempre produz o mesmo efeito.

Buriti claroO louco fala daquilo que o preocupa, mas a causa não é a preocupação; esta, quando muito, é uma espécie de forma de manifestação. Assim, havendo uma predisposição para a loucura, aquele que se ocupa de religião terá uma loucura religiosa; o amor produzirá a loucura amorosa; a ambição, a loucura das honras e das riquezas, etc.

A loucura tem como causa primeira uma fraqueza moral relativa, que torna o indivíduo incapaz de suportar o choque de certas impressões, no número das quais figura, ao menos em três quartas partes, a mágoa, o desespero, o desapontamento e todas as tribulações da vida. Dar ao homem a força necessária para ver tais coisas com indiferença, é atenuar a causa mais frequente que o leva à loucura e ao suicídio.

Ora, essa força ele a tira da Doutrina Espírita bem compreendida. Ante a grandeza do futuro que se descortina aos nossos olhos, e de que dá prova patente, as tribulações da vida tornam-se tão efêmeras que deslizam sobre a alma como a água sobre o mármore, sem deixar traços. O verdadeiro espírita não se liga à matéria senão o estritamente indispensável para as necessidades da vida; mas, se algo lhe falta, conforma-se, porque sabe que está aqui de passagem e que uma sorte muito melhor o aguarda. Também não se aflige por encontrar acidentalmente uma pedra em seu caminho.

Um dos benefícios do Espiritismo é o de dar à alma a força que lhe falta em muitas circunstâncias, e é nisto que ele pode reduzir as causas da loucura e do suicídio. Como se vê, os fatos mais simples podem ser uma fonte de ensinamentos para quem quer refletir. É mostrando as aplicações do Espiritismo nos casos mais vulgares que se fará compreender toda a sua sublimidade. Não está aí a verdadeira filosofia?

(Revista Espírita, ano III, 1860)

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