A PASSAGEM

A morte chega, e tudo não se acabou. O espírito sente que vive, mas não sabe se é vida material ou espiritual; ele luta ainda até que os últimos laços do perispírito tenham se rompido. A morte deu um fim à doença efetiva, porém, não deteve as consequências; enquanto existem pontos de contato entre o corpo e o perispírito, o espírito sente suas impressões e sofre com isso.

O espírito está como atordoado; mas, percebendo que pensa, ele acredita que ainda está vivo, e essa ilusão dura até que compreenda a sua situação. Esse estado intermediário entre a vida corporal e a vida espiritual é um dos mais interessantes para se estudar, porque apresenta o singular espetáculo de um espírito que confunde seu corpo fluídico com seu corpo material, e que experimenta todas as sensações da vida orgânica.

918Oferecendo uma variedade infinita de nuanças segundo o caráter, os conhecimentos e o grau de adiantamento moral do espírito, este estado de perturbação é de curta duração para aqueles cuja alma está depurada, porque neles havia um desprendimento antecipado do qual a morte, mesmo a mais súbita, nada mais faz que apressar a realização; em outros, pode se prolongar durante anos.

O espírito encarnado tanto mais se apega à vida corporal quanto menos vê além dela. Para trabalhar a própria depuração, reprimir suas más tendências e vencer suas paixões, é preciso que veja as vantagens dessas ações no futuro.

Para identificar-se com a vida futura, dirigir-lhe as aspirações e preferir esta vida à vida terrestre, é preciso não somente crer nela, mas compreendê-la; é preciso representá-la sob um aspecto satisfatório para a razão, em completo acordo com a lógica, o bom senso e a idéia que se faz da grandeza, da bondade e da justiça de Deus.

O Espiritismo não é, seguramente, indispensável; também não tem a pretensão de ser o único a garantir a salvação da alma, mas a facilita – pelos conhecimentos que proporciona e os sentimentos que inspira – as condições para que o homem compreenda a necessidade de se melhorar.

O espírita sério não se limita a crer; ele crê porque compreende, e compreende porque recorre ao seu discernimento; a vida futura é uma realidade que se desenrola continuamente aos seus olhos; ele a vê e a toca por assim dizer em todos os instantes. A vida corporal, tão limitada diante da vida espiritual, que é a verdadeira vida, para ele desaparece; daí a pouca atenção que dá aos incidentes do caminho e a sua resignação nas vicissitudes das quais compreende a causa e a utilidade.

(Allan Kardec, livro “O Céu e o Inferno”, cap. I)

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