EGOÍSMO FANTASIADO DE AMOR

Geralmente, vivemos tão compenetrados com nossas atividades pessoais, seja em ganhar dinheiro, em ganhar afeto, em ganhar status, etc, que nos tornamos impiedosos e cruéis no mundo, exalando intolerância e azedume. Desse modo, se agimos assim fora de casa, como seria possível termos amor por alguém dentro do lar? Não podemos, de um lado, explorar o próximo, desejar-lhe o mal, humilhá-lo, e depois ir para casa mostrar afeto para com os nossos. Não, senhores, não podemos fazer as duas coisas. No entanto, é o que queremos fazer, e queremos fazer isso porque temos apego, mas não temos amor verdadeiro.

535Desejamos a nossa própria continuidade, e buscamos isso através dos nossos filhos. Eles são muito importantes, não por eles próprios, mas por causa da nossa continuidade que eles representam – meu nome, minha classe, minha casta. Conhecemos muito bem essa história. Naturalmente, não existe amor nesse tipo de relação. Possuir uma pessoa é como prostituí-la, isto é, a pessoa se torna importante, não por si mesma, mas porque, dentro de mim, estou vazio, faminto, sou mau, insuficiente, pobre, e por isso utilizo outra pessoa – minha mulher, meu patrão ou qualquer outro – para cobrir o meu vazio interior.

Com o estudo surge a inteligência, e só a inteligência e o amor podem resolver este problema, e nunca a legislação. A pessoa possuída é um meio de fuga à solidão do possuidor, que, naturalmente, torna-se ciumento e invejoso. Para compreender todo esse processo humano, que é extremamente complexo e sutil, é preciso inteligência. Inteligência é também amor, algo totalmente diferente do apego; não podemos ter amor se, por um lado, procedemos cruelmente nos negócios, na vida quotidiana, e por outro lado, procuramos ser ternos, meigos e bondosos.

Não podemos fazer as duas coisas, não podemos ser ricos e ambiciosos, e ao mesmo tempo, amoráveis e carinhosos. Não podemos ser magnatas da indústria ou políticos inteligentes e, ao mesmo tempo compassivos. As duas coisas não andam juntas.

Só quando há amor, que é compaixão – que é a forma mais elevada de inteligência – é que pode ser resolvido este problema. Somos entes humanos, homens e mulheres; somos seres vivos, sensíveis, não somos capachos para sermos pisados, para sermos utilizados sexualmente ou mentalmente às satisfações egoístas.

Somente quando nos considerarmos, uns aos outros, como seres humanos, como indivíduos, e não como objetos para serem possuídos, teremos então a possibilidade de compreender e de transcender todos os conflitos.

(Trechos adaptados do livro “Da Insatisfação à Felicidade”, de Jiddu Krishnamurti)

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