A BANALIDADE DO MAL

A BANALIDADE DO MAL

O bem tem profundidade, traz em si uma síntese de virtudes, como tolerância e renúncia. Já o mal é banal, não tem profundidade e não é normal, mas é vivenciado como se fosse, porque se a maioria age de maneira anômala, então esta maneira é tida por normalidade. Assim, o mal, por ser raso, se espalha rapidamente na massa de cidadãos que não refletem, que não pensam e que não dão significado nem aos acontecimentos nem aos próprios atos.

857Quanto mais superficial uma pessoa for, mais provável será que ela ceda ao mal, principalmente por não percebê-lo. A propensão dos seres humanos a fazer parte de um grupo no qual se identifiquem, aderindo impensadamente a ideias, opiniões e “deveres”, pode levar ao cometimento de males inseparáveis. Assim, ideais perturbadores conduzem nações ao massacre de outros povos. No âmbito da vida familiar ocorre o mesmo, nos lares que são destruídos por intolerância e violência, ora dos pais, ora dos cônjuges, ora dos filhos.

O pertencimento a ideologias fabricadas pelo sistema político, e veiculado pelo aparato midiático ao longo do último século, fomentam o consumo e a competição, e portanto, a rivalidade e a indiferença na convivência; assim, ao exigir o alinhamento a estes “conceitos plastificados”, são custeados o desrespeito, o ódio e a destruição do “diferente”.

A adesão a opiniões da maioria – ou de um grupo – carrega consigo a possibilidade de matar aquele que não se adequa a tal “modus vivendi”. Convencido de que cumpre seu papel, o homem tolo, deformado pelos moldes do interesse das elites que governam, toma por dever as pueris e inconsequentes convenções estabelecidas, deixando de pensar por si mesmo.

Refletir e interrogar os próprios pensamentos e atos, as normas e os padrões a que fomos condicionados, é a única condição para não sermos tragados por esse mal, no qual as mentes fracas agridem, revidam e se vingam, convictas de que estão vestidas com a túnica da justiça.

Pensemos nisso.

(Extraído do pensamento de Hanna Arendt, em seu livro “Eichmann em Jerusalém”)

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