SEM PRUDÊNCIA, A RAZÃO PERECE

A prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom ou mau; é o que poderíamos chamar de bom senso a serviço de uma inteligência virtuosa (ou boa vontade).

A prudência condiciona todas as outras virtudes, pois nenhuma, sem ela, saberia o que se deve fazer, nem como chegar ao fim.

pequeno-tratado-das-grandes-virtudesSanto Tomás bem mostrou que, das quatro virtudes cardeais, a prudência é a que deve reger as outras três: a temperança, a coragem e a justiça, sem prudência, não saberiam o que se deve fazer; seriam virtudes cegas ou indeterminadas (o justo amaria a justiça sem saber como realizá-la, e o corajoso não saberia o que fazer de sua coragem).

A prudência supõe a incerteza, o risco, o acaso, o desconhecido. Um deus não a necessitaria; mas como um homem poderia dispensá-la? A prudência é a compreensão necessária que nos leva a querer não apenas o bom fim, mas os bons meios!

Não basta amar os filhos para sermos bons pais, nem querer o bem deles para fazê-lo. Ora, amar não dispensa ninguém de ser inteligente! A prudência é como um saber-viver real, e não simplesmente aparente, como a polidez.

Virtude temporal, a prudência leva em conta o futuro, na medida em que depende de nós encará-lo, e sabe recusar numerosos prazeres quando devem acarretar maior desprazer, ou buscar determinada dor, se ela permitir evitar dores piores.

É sempre pelo prazer que vamos, por exemplo, ao dentista ou ao trabalho, mas por um prazer no mais das vezes posterior ou indireto (pela evitação ou pela supressão de uma dor), que a prudência prevê, calcula e delibera. A prudência é uma virtude de paciência e de antecipação, nunca impulsiva ou viciosa em paixões de ordem inferior; é atenta, não apenas ao que acontece, mas ao que pode acontecer.

Não se pode viver no instante, no impulso, na reação; nem se pode chegar sempre ao prazer pelo caminho mais curto. O real impõe sua lei, seus obstáculos, seus desvios. A prudência é a arte de levar isso tudo em conta, é o desejo lúcido e razoável. Os românticos, por preferirem os sonhos, torcerão o nariz; mas os homens de ação sabem, ao contrário, que não há outro caminho.

A prudência é o que separa a ação do impulso, o herói do desmiolado; é o que Freud chama de princípio da realidade, de desfrutar o mais possível, e de sofrer o menos possível.

A prudência não é nem o medo nem a covardia. Sem a coragem, ela seria apenas pusilânime, assim como a coragem, sem ela, seria apenas temeridade ou loucura. No entanto, a prudência só é uma virtude quando a serviço de um fim estimável (de outro modo, não seria mais que habilidade).

Não é possível ser homem de bem sem prudência, nem prudente sem virtude moral. A prudência não basta à virtude (pois ela só delibera sobre os meios, quando a virtude também se prende à consideração dos fins), mas nenhuma virtude poderia isentar-se da prudência.

(Do livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, de André Comte Sponville)

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