A MODERAÇÃO

Apenas uma triste superstição poderia proibir de se obter prazeres. A moderação não se trata de não desfrutar, nem de desfrutar o menos possível. Isso não seria virtude mas tristeza, não moderação mas abstinência. Quanto maior é a alegria que nos afeta, tanto mais é necessário participarmos da natureza divina; assim, a moderação é o equilíbrio dos desejos que garante um desfrutar mais puro e pleno; é um gosto esclarecido, dominado e cultivado.

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É próprio de um homem sábio, para a reparação de suas forças, servir-se de alimentos e bebidas agradáveis, ingerindo-os em quantidade moderada, bem como, entreter-se em jogos que exercitam o corpo.

A moderação é esse equilíbrio pelo qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade. Que prazer é fazer amor, quando não somos prisioneiros do desejo! Prazeres mais puros, porque são mais livres; mais alegres, porque são mais bem controlados; mais serenos, porque são menos dependentes.

É fácil? Claro que não. É nisso que a moderação é uma virtude, é aquela cumeada, dizia Aristóteles, entre os dois abismos opostos da imoderação e da insensibilidade, entre a tristeza do desregrado e a do incapaz de gozar, entre o fastio do glutão e o do anoréxico. Que infelicidade suportar seu corpo! Que felicidade controlá-lo e desfrutá-lo! O imoderado é um escravo, subjugado por transportar em toda parte seu amo consigo, prisioneiro de seu corpo, de seus desejos, de seus hábitos, de sua fraqueza.

Numa sociedade não muito miserável, a água e o pão não faltam quase nunca; mas na sociedade rica, o ouro e o luxo sempre faltam. Como seríamos felizes uma vez que somos insatisfeitos? E como seríamos satisfeitos uma vez que nossos desejos não têm limites? Epicuro, ao contrário, fazia um banquete com um pouco de queijo ou de peixe seco. Que felicidade comer quando se tem fome! Que felicidade não ter mais fome quando se comeu! A moderação é um meio para a independência, assim como a independência é um meio para a felicidade.

828Ser moderado é poder contentar-se com pouco; a moderação – como a prudência e todas as virtudes – é um trabalho do desejo sobre si mesmo, e não visa superar nossos limites, mas respeitá-los. Pobre Dom Juan, que necessita de tantas mulheres! Pobre alcoólatra, que precisa beber tanto! Pobre glutão, que precisa comer tanto!

Não é o corpo que é insaciável; é a ilimitação dos desejos – essa doença da imaginação – que nos condena à falta, à insatisfação, à infelicidade. O sábio estabelece limites para o desejo, como para o temor. Mas os prisioneiros do prazer não sabem se contentar, nem mesmo com o excesso! É por isso que os desregrados são tristes; é por isso que os alcoólatras são infelizes; e o que há de mais sinistro do que um glutão empanturrado? “Comi demais”, diz ele refestelando-se, e ei-lo pesado, inchado, esgotado, infeliz e, portanto, insatisfeito.

Dizia Montaigne: “A imoderação é peste da volúpia, e a moderação é o tempero que permite saborear o prazer em sua mais graciosa doçura”. Mas quem sabe se contentar com o necessário? Quem sabe apreciar o supérfluo apenas quando este se apresenta? Somente o sábio, talvez. A moderação intensifica o prazer, quando o prazer está presente, e faz as vezes do prazer, quando este não está presente.

Que prazer não carecer de nada! Que prazer ser senhor de seus prazeres! Aquele a quem a vida basta, de que poderia carecer? São Francisco de Assis redescobrirá esse segredo, talvez, de uma pobreza feliz. Mas a lição vale, sobretudo, para nossas sociedades de abundância, nas quais se morre e se sofre com maior frequência pela imoderação dos excessos do que pela fome da escassez.

O poder de nossa alma sobre os impulsos irracionais de nossos afetos ou de nossos apetites é o que se pode chamar de moderação, virtude que supera todos os gêneros de embriaguez dos sentidos, e que deve superar, portanto, também a embriaguez de si mesma enquanto virtude; e é aí que ela se aproxima da humildade.

A moderação tem por objeto os desejos mais necessários à vida do indivíduo (beber, comer) e da espécie (fazer amor), que são também os mais fortes e, portanto, os mais difíceis de dominar. Isso quer dizer que não se trata de suprimi-los – a insensibilidade é um defeito -, mas no máximo, e tanto quanto possível, controlá-los e mantê-los em equilíbrio, em harmonia, em paz.

Virtude não de exceção mas de regra, não de heroísmo mas de comedimento, a moderação é o contrário do desregramento de todos os sentidos. É por isso, talvez, que nossa época prefere os poetas aos filósofos e as crianças aos sábios. Pobre época, que acima dos poetas só sabe pôr os médicos!

 (Do livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, de André Comte Sponville)

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