A POLIDEZ

A polidez é a primeira virtude e, quem sabe, a origem de todas. A polidez faz pouco caso da moral, e a moral da polidez. Um nazista polido em que altera o nazismo? Em que altera o horror? Em nada. Um canalha polido não é menos ignóbil que outro, talvez seja até mais. O canalha polido poderia facilmente ser cínico, aliás, sem por isso faltar nem com a polidez nem com a maldade.

A polidez torna o mau mais odiável porque denota nele uma educação sem a qual sua maldade, de certa forma, seria desculpável. Um ser grosseiro, podemos acusar seu lado animal, a ignorância, a incultura, pôr a culpa numa infância devastada ou no fracasso de uma sociedade. Um ser polido, não. A polidez é, nesse sentido, como que uma circunstância agravante.

813A polidez não é uma virtude. O homem só pode tornar-se homem pela educação, e a polidez é a disciplina que primeiro transforma a animalidade em humanidade.

A polidez, por conseguinte (“isso não se faz”), é anterior à moral (“isso não se deve fazer”), a qual só se constituirá pouco a pouco, como uma polidez interiorizada, livre de aparências e de interesses, toda concentrada na intenção (com a qual a polidez nada tem a ver). Mas como essa moral emergiria, se a polidez não fosse dada primeiro? As boas maneiras precedem as boas ações e levam a estas.

A moral é como uma polidez da alma, um saber viver de si para consigo (ainda que se trate, sobretudo, do outro), uma etiqueta da vida interior, um código de nossos deveres. A polidez é como uma moral do corpo, uma ética do comportamento, um código da vida social, um cerimonial do essencial.

Nenhuma virtude é natural; logo é preciso tornar-se virtuoso. É praticando as ações justas que nos tornamos justos; é praticando as ações moderadas que nos tornamos moderados. Mas como agir justamente sem saber ainda ser justo? Ou com moderação sem ser moderado? Com coragem sem ser corajoso? E como, então, vir a sê-lo? Pelo hábito, parece responder Aristóteles.

A virtude pela disciplina, por uma coerção externa, como a criança que, por falta de instinto, não pode fazer por si mesma, “é preciso que outros façam por ela”. Assim é que uma geração educa outra, sem dúvida. Ora, o que é essa disciplina na família, senão, antes de tudo, o respeito dos usos e das boas maneiras? Disciplina não de polícia, mas de polidez. É por ela que, imitando as maneiras da virtude, talvez tenhamos uma oportunidade de virmos a ser virtuosos de verdade.

A polidez nem sempre inspira a bondade, a equidade, a complacência, a gratidão; mas, pelo menos, dá uma aparência disso e faz o homem parecer por fora como deveria ser por dentro. Por isso ela é insuficiente no adulto e necessária na criança. É apenas um começo, mas o é. Dizer “por favor” ou “desculpe” é simular respeito; dizer “obrigado” é simular reconhecimento. É aí que, pelo hábito, começam o respeito e o reconhecimento verdadeiros. Imitando a virtude nos tornamos virtuosos: Pelo fato de os homens representarem esses papéis de virtudes que só tomam a aparência, é que despertam pouco a pouco e incorporam-nas em seu modos de ser. A polidez é anterior à moral, e a permite.

pequeno-tratado-das-grandes-virtudesSegundo Kant, trata-se, primeiro, de assumir “os modos do bem”, não, para contentar-se com eles, mas para alcançar, por meio deles, o que eles imitam – a virtude – e que só advém imitando-os. A aparência do bem nos outros, escreve ainda Kant, “não é desprovida de valor para nós: desse jogo de dissimulações, que suscita o respeito sem talvez merecê-lo, pode nascer a seriedade”, sem a qual a moral não poderia se transmitir nem se constituir em cada um.

“As disposições morais provêm de atos que lhes são semelhantes”, dizia Aristóteles. A polidez é essa aparência de virtude, de que as virtudes provêm. Ora, sem a polidez, seria necessário ser virtuoso para poder tornar-se virtuoso.

Entre um homem perfeitamente polido e um homem simplesmente benevolente, respeitador, modesto…, as diferenças, em muitas ocasiões, são ínfimas: acabamos nos parecendo com o que imitamos, e a polidez leva pouco a pouco à moral. Todos os pais sabem disso, e é o que chamam educar seus filhos.

A polidez não é tudo, nem o essencial. Ser bem-educado é antes de tudo ser polido. Repreender os filhos mil vezes para que digam “por favor”, “obrigado”, “desculpe” é coisa que nenhum de nós faria – salvo algum maníaco ou esnobe -, se se tratasse apenas de polidez. Mas o respeito se aprende, verdadeiramente, como consequência desse treinamento.

O amor não basta para educar os filhos, nem mesmo para torná-los amáveis. A polidez também não basta, é por isso que um e outra são necessários. Toda a educação familiar situa-se aí.

Portanto, a polidez não é uma virtude, mas é o simulacro que a imita (nos adultos) ou que a prepara (nas crianças). Assim, ela muda com a idade, se não de natureza, pelo menos de alcance. Essencial durante a infância, inessencial na idade adulta. O que há de pior do que uma criança mal-educada, senão um adulto ruim?

Ora, não somos mais crianças. Sabemos amar, julgar, querer… Capazes de virtude, pois capazes de amor, que a polidez não poderia substituir. O saber-viver não é a vida; a polidez não é a moral. A polidez é uma pequena coisa, que prepara grandes coisas; mas ela em si mesma é quase nada, como o homem, também, é quase um animal.

(Pequeno Tratado das Grandes Virtudes – Sponville)

PDF do livro, aqui.

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