A FELICIDADE É UM EFEITO COLATERAL, E NÃO UM FIM EM SI MESMA

Talvez, porque não refletimos suficientemente sobre o que a felicidade é, buscamo-la – geralmente – onde ela não está. Procuramos a felicidade na soma de sensações momentâneas que se esvaem, como o prazer biológico e os status da vaidade (vaidade estética, intelectual, material, etc) e, garantimos, ao longo do tempo, frustração e tristeza para nós mesmos.

Pois bem! Nada disso é felicidade. Felicidade é uma construção que, à medida que se obtém, não mais se perde; é preciso, no entanto, reflexão e maturidade psicológica para assimilar isso.

776A felicidade não é um fim em si mesma; ela é um efeito colateral do aprendizado virtuoso. Isso mesmo! Uma pessoa empenhada em assimilar virtudes, ao apreender, por exemplo, humildade, já não sofrerá o mesmo tormento do orgulho-ferido quando alguém lhe maltratar; já uma pessoa muito arraigada ao defeito do orgulho, ao contrário, sofrerá bastante com o ressentimento, o rancor, a ira e tantos outros sentimentos que perturbam o equilíbrio emocional e impossibilitam a razão.

O ambicioso, que tem necessidade de ter mais, ao sofrer um revés, se verá atormentado por angústias que uma pessoa desapegada do vício da ambição não sofre, mesmo que passe pelo mesmo revés; o vaidoso, face a degeneração orgânica que se dá ao longo dos anos, deprime de maneira que a pessoa não-vaidosa desconhece.

O ser que busca as virtudes, ao lutar para se libertar das más paixões de orgulho, ambição, sensualismo, inveja, ciúme, vaidade, etc, se encontra tanto mais livre dos tormentos que estes defeitos suscitam, quanto mais empenhado estiver no seu aperfeiçoamento moral; e o efeito colateral de equilíbrio e paz que este estado virtuoso produz chama-se Felicidade.

As fontes de prazer da pessoa virtuosa são bem diferentes dos objetos de entretenimento das pessoas que não se interessam em aperfeiçoar-se virtuosamente. Estas, as não-virtuosas, vivem imersas na sua porção inferior do ego irascível, e, com o raciocínio constantemente amolentado pelas mazelas do orgulho-ferido, tentam cessar suas angústias impondo os seus pontos de vista sobre o livre-arbítrio alheio; suas fontes de prazer restringem-se em se verem acima dos outros e na saciação dos apetites fugazes do corpo e das vaidades do ego-orgulhoso.

São as virtudes, como a paciência (capacidade de saber esperar sem se exasperar), a tolerância (capacidade de suportar os que pensam diferente) e o perdão (capacidade de bem querer quem não nos quer bem) que, unidas a muitas outras virtudes, dão causa ao equilíbrio, à tranquilidade, à verdadeira Felicidade.

Uma pessoa não virtuosa é uma pessoa escravizada, em completa desordem, deslocada, perdida e confusa. A virtude é essencial. Buscá-la é como trilhar um longo e estreito caminho de esforço pessoal para vencer o próprio ego; e o término desse caminho culmina na conquista da postura livre – não mais de esforço -, transportando o ser virtuoso a um estado de espírito imperturbável por ações exteriores.

Mas assim como a felicidade, a virtuosidade também não é um fim em si mesma; as virtudes proporcionam liberdade existencial, e nessa liberdade há descoberta transcendental. As virtudes mudam-nos completamente os prismas de visão do mundo, e perspectivas inéditas fulguram novos rumos, de beleza indizível e incompreensível aos não-virtuosos.

Portanto, tratar a felicidade ou a virtude como fins em si mesmas é lhes atribuir muito pouco significado.

Pensemos nisso.

(Inspirado em: J.Krishnamurti – The Collected Works vol V, pp 328-329)

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