ESPIRITISMO NÃO É RELIGIÃO

Há quem se esforce por ver o Espiritismo como uma religião nova, uma vez que dele decorre uma filosofia e porque nele nos ocupamos da constituição física e moral dos mundos. Sob esse aspecto, todas as filosofias seriam religiões.

Não sabemos até que ponto seria imprudente e perigoso enunciar semelhante doutrina, porquanto é provocar uma cisão que não existe. Vede, um pouco, a que consequências divisoras chegais com esta maneira errônea de se pensar:

Quando a Ciência veio contestar o sentido do texto bíblico dos seis dias da Criação, lançaram anátemas e disseram que era um ataque à religião. Hoje, que os fatos deram razão à Ciência, que já não há meios de os contestar, a não ser negando a luz da razão, a Igreja se pôs de acordo com a Ciência.

773Suponhamos, então, que se tivessem visto as primeiras observações da geologia como uma religião nova, porque parecia em contradição com os livros sagrados e lançava por terra uma interpretação dada há séculos, daí resulta que não era possível ser católico e adotar tais idéias novas. Pensemos a que se reduziria o número dos católicos, se fossem excluídos todos os que não acreditam que Deus fez a Terra em seis vezes vinte e quatro horas!

Sucede o mesmo com o Espiritismo. Se o olhais como uma religião nova, é que aos vossos olhos o Espiritismo não pode ser apreciado pelo católico (ou pelo evangélico, ou budista, etc). Ora, acompanhai bem o nosso raciocínio. De duas uma: ou o Espiritismo é uma realidade, ou uma utopia. Se é uma utopia, não há que se preocupar com ele, já que cairá por si mesmo. Se é uma realidade, todos os raios não o impedirão de ser, da mesma forma que, outrora, a Terra jamais foi impedida de girar, mesmo quando o homem a supunha chata.

Se, verdadeiramente, há um mundo invisível que nos rodeia; se podemos entrar em comunicação com esse mundo e dele obter ensinamentos sobre o estado de seus habitantes – e todo o Espiritismo está aí contido – em pouco tempo isso parecerá tão natural como hoje sabemos encontrar milhares de seres vivos e invisíveis numa gota de água límpida.

Se a luz da verdade está no Espiritismo, essa crença se tornará tão comum que os homens se renderão à evidência. Mas, se aos vossos olhos essa crença é uma religião nova, por consequência, ela estaria fora de qualquer outra religião, porque não poderia ser simultaneamente a religião católica (ou qualquer outra) e uma religião nova.

Se, pela força das coisas e da evidência, ela se generalizar – e não poderá deixar de ser assim, pois se trata de uma lei da Natureza –, não haveria mais católicos, porque os católicos seriam forçados a agir como todo mundo. Mas não, não há tal divisão. O Espiritismo não vem concorrer com religião alguma, do mesmo modo que a eletricidade – invisível aos olhos – não vem disputar com qualquer outra Lei Natural.

O Espiritismo está fora de todas as crenças dogmáticas; e não deve ser considerado senão como ciência filosófica, que nos explica uma porção de coisas que não compreendemos e, por isso mesmo, em vez de abafar as idéias religiosas, ao contrário, faz brotá-las naqueles em que elas não existem (…)

(Allan Kardec, Jornal de Estudos Psicológicos – ano II, Julho de 1859)

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