QUANTO MENOS VIRTUDES, MAIS SOFRIMENTO

Se refletirmos honestamente sobre a bondade, virtude caracterizada por não produzir um mau sentimento naquele que sofre um mal qualquer, perceberemos que a maioria de nós não a possui em essência; entretanto não devemos, por isso, deixar de buscá-la por esforço, pois aquele que a conquistou, certamente trilhou antes, um caminho longo e lento de tolerância e perdão.

Assim, decididos a alcançá-la, logo pensamos que ficaremos doentes, que vamos “estourar”, porque em vez de “botar os bofes para fora”, estamos agora nos propondo a não revidar, não retrucar, não devolver a “bola da ofensa”; o que significa, em outras palavras, passar a “engolir sapos” do chefe, do marido, da esposa, do parente difícil, do estranho no trânsito, etc.

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Contudo, depois de um tempo mais ou menos longo refreando o impulso reativo, passamos a desenvolver uma nova e crescente capacidade de “observar”, tanto na análise de nós mesmos, quanto dos outros; então, em vez de nos contaminarmos com a ofensa, passamos a ver naquele que agride, o desequilíbrio de quem sofre e necessita de compreensão .

Entendemos que se estivéssemos em seu lugar, com a sua educação, as suas capacidades intelectivas e limitações morais, agiríamos exatamente como ele. Engraçado é que antes, sempre que éramos feridos em nosso amor-próprio, não víamos isso, porque o sentimento afetado nos mergulhava no sofrimento do orgulho-ferido, impedindo-nos de qualquer possibilidade de análise imparcial.

Se outrora nossa preocupação era saber até onde aguentaríamos “desaforos”, agora, pelas virtudes que estamos assimilando, todo o nosso mundo íntimo vem se alterando gradualmente, permitindo-nos captar o mundo fora de nós com mais tolerância, depois, com mais compaixão, depois, com mais benevolência; eis a consequência palpável de combater em si mesmo a ofensa, e não o ofensor.

Aquele que conquistou a humildade – coisa raríssima – não precisa sequer perdoar, porque não se ofende. Ora, a humildade é a virtude oposta ao vício do orgulho. Por isso, todo aquele que é humilde, seja rico ou pobre (humildade não tem relação alguma com posição social), saberá viver em paz mesmo em meio ao caos.

O humilde não julga, observa; mas o ressentido se vê sempre na necessidade de julgar, pois sofre no seu orgulho-ferido.

Orgulhosos, precisamos muito nos esforçar para alcançar a humildade, essa “armadura” contra o sofrimento; aprendamos primeiro as virtudes de transição, como tolerância e perdão, e perceberemos que não é ação dos outros que nos causa sofrimento, mas é o orgulho ferido – pela falta de virtudes –  que nos faz julgar e sofrer.

Pensemos nisso.

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