EXISTE UM CAMINHO PARA A FELICIDADE?

Felicidade. Palavra que exige investigação profunda. Afinal, o que é felicidade? Seria a conquista de algum objeto de desejo? Seria, talvez, o status profissional ou o conforto material? Quem sabe, a felicidade estaria na beleza física ou na vivência de uma grande paixão? Mas, e quando o corpo não for mais belo, quando a paixão escoar no tempo, quando o dinheiro não puder comprar saúde? Se todas estas coisas – estados transitórios – representam a felicidade, então ela está restrita a fugazes momentos de alegria que se perdem em abismos de frustração e tristeza.

O utilitarismo define a felicidade como sendo aumento de prazer e diminuição da dor. Se assim for, está explicado porque tantas pessoas se entorpecem com álcool, remédios e outras drogas que diminuem a capacidade de pensar, possibilitando ao ser racional, reduzir a sua ponderabilidade a fim de se entregar aos seus instintos e inclinações. Se felicidade é isto, então ela não foi feita para o ser racional que, se não precisa se entorpecer, precisará ser imoral, porque, num único dia, há incontáveis momentos em que o homem se vê entre escolhas onde o prazer está no delito e no excesso, ou seja, na contramão da moralidade.

454Para o filósofo Luc Ferry, a felicidade plena é impossível nesta vida, porque separações, morte de pessoas queridas, doenças e acidentes são acontecimentos inevitáveis. Para ele, o que se pode almejar como felicidade é a serenidade, bem diferente da euforia e dos picos de prazer biológico e satisfação de vaidades que as massas humanas tanto almejam

Muitos filósofos alegam que a felicidade é a busca do tolo; que é preciso, antes, conhecer a si mesmo, porque enquanto não se conhece as suas inclinações, o homem se faz escravo delas, depositando na sua saciação as suas expectativas de felicidade. Então, depois de exaurir sua saúde em excessos, ele percebe que a realização de seus apetites não representa, por consequência, um estado de real felicidade.

Aristóteles sintetiza a felicidade não como uma busca, mas como consequência da busca; segundo seu pensamento, a busca da vida humana deve ser o desenvolvimento das virtudes. Faz sentido! Por exemplo, o perdão é uma virtude que possibilita que o mal fora de si não se torne um mal em si. O maior filósofo que conhecemos, o Cristo, sintetizou isto de maneira que não poderia ser mais profunda, ao responder a Pedro:

“Perdoarás, mas ilimitadamente a cada ofensa. Ensinarás aos teus irmãos o esquecimento de si mesmo; eis o que torna a criatura invulnerável aos ataques”.

Num mundo regido pelo amor próprio, vulgo egoísmo, não é de se estranhar que a ética das virtudes tenha apodrecido sobremaneira, ao ponto de as sociedades terem produzido padrões de “normalidade” extremamente baixos, mas que servem para “justificar” os vícios da conduta humana irrefletida; afinal, se todo o mundo faz, então está “correto”.

Pela simples dúvida sobre a perpetuidade de sua existência num estado talvez metafísico, o homem idealiza sua felicidade nas conquistas materiais e na saciação de suas paixões, lançando mão da “louvável” justificativa: “Se a vida é apenas isso, vamos aproveitar enquanto podemos!”. Curioso é que, quase sempre tarde para fazer diferente, ele percebe não haver subsídio de valor exterior capaz de preencher o vazio interior que nele se instala e se agiganta à medida que o seu tempo de vida escasseia.

Contudo, seja numa visão monista ou idealista, seja na filosofia ocidental ou nas orientais, seja numa doutrina séria qualquer, não importa, não há um caminho nem passo a passo, não existe um guru da felicidade. Cada ser é um indivíduo único em grau intelectivo-moral distinto, e que necessita descobrir, pelo próprio esforço, os limites da sua ignorância; somente desta maneira ele será capaz de identificar e combater as paixões que vertem, incessantemente, do orgulho e do egoísmo que lhe pervertem a razão.

Conhecendo a si mesmo e, resistindo às suas más inclinações, o homem consegue, lentamente, desenvolver virtudes que alteram o seu mundo íntimo, mudando, com isso, também suas necessidades e vontades; é quando ele descobre novas fontes de prazer, não mais restritas à tacanhez das sensações biológicas nem do ego competitivo.

Então, nesta longa jornada pela construção de si mesmo, o gênero humano experiencia um estado de felicidade sutil e crescente, bem mais próxima da serenidade de Luc Ferry e da renúncia do Cristo do que das buscas falaciosas de felicidade egóica e transitória que nas sociedades ainda vigoram.

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