TESE, ANTÍTESE, SÍNTESE

No seu princípio, as idéias, as ciências, as reflexões filosóficas, o conhecimento em si, não representam senão uma fração daquilo que são; os o primeiros pensadores, os primeiros homens de ciência, os primeiros gênios não puderam ver tudo; cada um viu por seu lado e se apressou a transmitir suas impressões conforme seu ponto de vista e segundo suas idéias ou prevenções.

De acordo com o meio, o mesmo objeto a uns pode parecer quente, ao passo que outros o acharão frio. Tomemos ainda outra comparação trivial. No século XIX, lia-se em diversos jornais:

“O cogumelo é um produto dos mais bizarros; delicioso ou mortal, microscópico ou de dimensão fenomenal, confunde, sem cessar, a observação do botânico. No túnel de Doncastre existe um cogumelo que há doze meses se desenvolve, parecendo não haver ainda atingido sua última fase de crescimento. Atualmente, mede quinze pés de diâmetro. Veio num pedaço de madeira; é considerado o mais belo espécime de cogumelo que já existiu. Sua classificação é difícil, porque as opiniões estão divididas.”

dialeticaAssim, eis a ciência em grande dificuldade por causa de um cogumelo que se apresenta sob um novo aspecto. Esse fato nos provoca a seguinte reflexão:

Suponhamos vários naturalistas, cada um a observar, por seu lado, uma variedade desse fungo: um dirá que o cogumelo é um criptógamo comestível, apreciado pelas pessoas de fino paladar; o segundo, que é venenoso; o terceiro, que é invisível a olho nu; e o quarto, que pode alcançar até quarenta e cinco pés de circunferência, etc.

À primeira vista, todas as asserções são contraditórias e pouco apropriadas à fixação das idéias sobre a verdadeira natureza dos cogumelos. Depois virá um quinto observador que reconhecerá a identidade dos caracteres gerais e mostrará que essas propriedades tão diversas constituem, em verdade, subdivisões ou variedades de uma mesma classe. De seu ponto de vista, cada um tinha razão; todos, porém, laboravam em erro, ao concluírem do particular para o geral, e ao tomarem a parte pelo todo.

Precipitaram-se, cada um à sua maneira, em explicar os fenômenos antes que vissem tudo, buscando-lhes as causas naquilo em que consistia o objeto de suas preocupações. Tal qual o magnetista e o físico ao apontarem a causa de movimento, aparentemente, involuntário num objeto inanimado; o primeiro, dirá se tratar de um efeito do magnetismo; o segundo, da ação elétrica.

Se as divergências de opinião originam-se dos diferentes aspectos sob os quais se considera um objeto de estudo, de que lado está a verdade? É o que compete ao futuro demonstrar, pois há uma tendência evidente, um princípio que reúne, pouco a pouco, os sistemas prematuros; uma observação menos exclusiva os unem a uma fonte comum, vendo-se que a divergência é mais de forma do que de fundo.

(Hippolyte Denizard Rivail – adaptado de “Jornal de Estudos Psicológicos”, edição de agosto de 1858)

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