BÊNÇÃOS DA POBREZA MATERIAL

Deixando o posto de Socorro “Campo da Paz”, Aniceto (nosso instrutor), eu (André Luiz) e Vicente (aprendiz, como eu, do ministério dos Mensageiros), viajamos para a Crosta terrestre. Após a exaustiva viagem, chegamos, enfim, à cidade do Rio de Janeiro. Então, Aniceto, indicando uma casa pobre, falou:

– Teremos aqui o nosso refúgio. É uma oficina que representa “Nosso Lar”.

Estupefato, observei que numerosos companheiros espirituais assomavam à janela, saudando-nos alegremente. Nosso instrutor envolveu o anfitrião num abraço amistoso, apresentando-nos em seguida.

– Aqui, meu caro Isidoro – disse a indicar-nos, carinhoso –, são nossos amigos Vicente e André, novos cooperadores de serviço, em “Nosso Lar”.

– Muito bem! muito bem! A casa pertence a todos os cooperadores fiéis do serviço cristão.

Reparei o interior. A paisagem material mostrava alguns móveis singelos, velha máquina de costura movimentada por uma jovem aparentando dezesseis anos, um rapazote de doze anos presumíveis, atento a cadernetas de exercício escolar, três crianças de nove, sete e cinco anos, aproximadamente, e, como figura central do grupo doméstico, uma senhora de quarenta anos, mais ou menos, tricoteando uma blusa. Notei, porém, que da fronte, do tórax, do olhar e das mãos dessa senhora irradiava-se luz incessante que me não permitia sofrear minhas expressões admirativas.

– Temos, aqui, a nossa irmã Isabel. Para os olhos humanos ela é a viúva de Isidoro, mas para nós é uma servidora leal nas atividades da fé.

Os Mensageiros - André Luiz_1Reparei que Dona Isabel parecia, de algum modo, registrar a nossa presença, acusando certa surpresa no olhar, mas Aniceto adiantou-se, esclarecendo:

– Nossa amiga é senhora de grande vidência psíquica, mas os benfeitores que nos orientam os esforços recomendam não se lhe permita a visão total do que se passa em torno de suas faculdades mediúnicas. O conhecimento exato da paisagem espiritual, em que vive, talvez lhe prejudicasse a tranqüilidade. Isabel, portanto, apenas pode ver, mais ou menos, a vigésima parte dos serviços espirituais em que colabora, de modo direto…

Há três anos, voltou Isidoro para nossa esfera, e contudo, graças ao altruísmo da esposa e aos vínculos de amor espiritual que conservam acima de todas as expressões físicas, continuam estreitamente unidos, como no primeiro dia do reencontro na existência material.

Nas primeiras horas da noite, Dona Isabel abandonou a agulha de tricô e convidou os filhinhos para o culto doméstico. Com tamanha naturalidade acomodaram-se todos em torno da mesa. A viúva se sentou à cabeceira e, após meditar breves instantes, recomendou à pequena Neli, de nove anos, fizesse a oração inicial do culto, pedindo a Jesus o esclarecimento espiritual.

Todos os trabalhadores invisíveis sentaram-se, respeitosos. Isidoro e alguns companheiros mais íntimos do casal permaneceram ao lado de Dona Isabel, sendo quase todos vistos e ouvidos por ela. Tão logo começou aquele serviço espiritual da família, as luzes ambientes se tornaram muito mais intensas.

Após a prece, abriram o novo testamento e leram-no, comentando, depois, as impressões que tiveram sobre a parábola contida no cap. 13 do Evangelho de Mateus, em que o mestre assemelha o Reino dos Céus ao grão de mostarda que o homem semeou no campo, aludindo-nos à importância dos pequenos atos que compõem o todo da vida.

Durante o comentário evangélico, a pequenina Marieta, que parecia haver atingido os sete anos, aproveitando o momento de palavra livre, perguntou à mãezinha, em tom comovedor:

333– Mamãe, se Jesus é tão bom, porque estamos comendo só uma vez por dia, aqui em casa? Na casa de Dona Fausta, eles fazem duas refeições, almoçam e jantam. Neli me contou que no tempo de papai também fazíamos assim, mas agora… Porque será?

A viúva esboçou um sorriso algo triste e falou:

– Ora, Marieta, você vive muito impressionada com essa questão. Não devemos, filhinha, subordinar todos os pensamentos às necessidades do estômago. Há quanto tempo estamos tomando nossa refeição diária e gozando boa saúde? Quanto benefício estaremos colhendo com esta frugalidade de alimentação?
Joaninha interveio, acrescentando:

– Mamãe tem toda a razão. Tenho visto muita gente adoecer por abuso da mesa. Temos nossa casinha, nossa união espiritual, nossos bons amigos. Convençam-se de que o papai está trabalhando ainda por nós.

Nessa altura da palestra, dada a nossa comoção, Isidoro enxugou os olhos úmidos. Noemi, a caçula pequenina, falou em voz infantil:

– É mesmo, é verdade! Eu vi papai ajudando a segurar o bolo que Dona Cora nos trouxe domingo.

– Também vi, Noemi – disse Dona Isabel, de olhos vivamente brilhantes –, papai continua auxiliando-nos.

– Quando sabemos amar e esperar, meus filhos, não nos separamos dos entes queridos que morrem para a vida física.

– Quando a senhora fala, mamãe, eu sinto que tudo é verdade! Como Jesus é bom! E se nós não tivéssemos a senhora? Tenho visto os pequenos mendigos abandonados. Talvez não comam coisa alguma, talvez não tenham amigos como os nossos! Ah! como devemos ser agradecidos ao Céu!…

– Muito bem, minha filha! Nunca deveremos reclamar e sim louvar sempre. E possivelmente não saberia você compreender tais situações, se estivéssemos em mesas lautas. A pobreza é uma das melhores oportunidades de elevação, ao nosso alcance. Estou convencida de que os homens afortunados têm uma grande tarefa a cumprir na Terra, mas admito que os pobres, além da missão que lhes cabe no mundo, são mais livres e mais felizes, pois na pobreza é mais fácil encontrar a amizade sincera, a visão da assistência de Deus, os tesouros da natureza e a riqueza das alegrias simples e puras. O homem de grandes possibilidades financeiras muito dificilmente saberá discernir entre a afeição e o interesse mesquinho; pelo conforto viciado a que se entrega, as mais das vezes se afasta das bênçãos da Natureza; e em vista de muito satisfazer aos próprios caprichos, restringe a sua capacidade de alegrar-se.

(Trechos do cap. 36 do livro “Os Mensageiros”, de Francisco Cândido Xavier – pelo Espírito André Luiz)

Arquivo PDF do livro, aqui.

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