ALGUNS RECÉM-DESENCARNADOS

Visitávamos a “Mansão Paz”, notável escola de reajuste. O estabelecimento, situado nas regiões inferiores, era bem uma espécie de “mosteiro São Bernardo”, em zona castigada por natureza hostil, com a diferença de que a neve, quase constante em torno do célebre convento encravado nos desfiladeiros entre a Suíça e a Itália, era ali substituída por sombra espessa e ventania incessante.

O pouso acolhedor, que permanece sob a jurisdição de “Nosso Lar”, está fundado há mais de três séculos, dedicando-se a receber Espíritos infelizes ou enfermos, decididos a trabalhar pela própria regeneração.

Pela sombra reinante, não poderíamos saber se era dia, se era noite. Por isso, o grande relógio, ali existente, com largo mostrador abrangendo as vinte e quatro horas, funcionou aos meus olhos como a bússola para o viajante, deixando-me perceber que estávamos em noite alta.

Cópia_de_segurança_de_Ação e Reação 14x21_OK.cdrSons de campanas invisíveis cortavam agora o ar e, assinalando-nos a curiosidade, Silas, abnegado assistente daquele posto de socorro, esclareceu que a caravana-comboio penetraria no recinto em alguns minutos.

Que espécie de criaturas aguardávamos, ali? recém-desencarnados em que condições? O companheiro, que se dispusera a assistir-nos, informou que as entidades prestes a entrarem integravam uma equipe de dezenove pessoas, acompanhadas por dez servidores da casa, que lhes orientavam a excursão, tratando-se de recém-desencarnados em desequilíbrio mental, mas credores de imediata assistência.

Mal terminara o interlocutor e a expedição penetrava o enorme átrio. Os cooperadores responsáveis estavam aparentemente calmos, evidenciando alguns, entretanto, no olhar, funda preocupação. Os recolhidos, no entanto, exceção de cinco que vinham de maca, desmemoriados e dormentes, revelavam perturbações manifestas que, em alguns, se expressavam por loucura desagradável, se bem que pacífica. Enquanto os enfermeiros se desvelavam em ajudá-los, carinhosos e atentos, aqueles seres recém-chegados falavam e reclamavam, demonstrando absoluta ausência mental da realidade e provocando piedade e constrangimento.

Notei que as criaturas recém-desligadas do corpo denso, conturbadas qual se achavam, traziam consigo todos os sinais das moléstias que lhes haviam imposto a desencarnação. Dama simpática abeirara-se de uma jovem senhora que vinha amparada pela ternura de uma das enfermeiras da instituição, e, abraçando-a, chorava sem palavras. A moça recém-liberta recebia-lhe os carinhos, rogando:

– Não me deixem morrer!… não me deixem morrer!…

Mostrando-se enclausurada na lembrança dos momentos derradeiros no corpo terrestre, de olhos torturados e lacrimosos, avançou para Silas, exclamando:

– Padre! (*) padre, deixa cair sobre mim a bênção da extremaunção; contudo, afasta de minhalma a foice da morte!… Tentei apagar minha falta na fonte da caridade para com os desprotegidos da sorte, mas a ingratidão, praticada com minha mãe, fala muito alto em minha consciência infeliz!… Ah! por que o orgulho me encegueceu, assim tanto, a ponto de condená-la à miséria?!…

Por que não possuía eu, há vinte anos, a compreensão que tenho agora? Pobrezinha, meu padre! Lembra-se dela? Era uma atriz humilde que me criou com imensa doçura!… Concentrou em mim a existência… Da ribalta festiva, desceu a rude labor doméstico para conquistar nosso pão… Tinha a sociedade contra ela, e meu pai, sem ânimo de lutar pela felicidade de todas nós, deixou-a arrastar-se na extrema pobreza, acovardado e infiel aos compromissos
que livremente assumira…

A infortunada criatura fez ligeiro interregno, misturando as próprias lágrimas com as da nobre matrona que a conchegava de encontro ao peito e, de mente aprisionada à confissão que fizera “In extremis”, continuou qual se tivesse o sacerdote ao pé de si:

– Padre, perdoe-me, em nome de Jesus, entretanto, quando me vi jovem e senhora do vultoso dote que meu pai me conferira, envergonhei-me do anjo maternal que sobre os meus dias estendera as brancas asas e, aliando-me ao homem vaidoso que desposei expulsei-a de nossa casa!… Oh! ainda sinto o frio daquela terrível noite de adeus!… Atirei-lhe ao rosto frases cruéis… Para justificar minha vileza de coração, caluniei-a sem piedade!… Pretendendo elevar-me no conceito do homem que desposara, menti que ela não era minha mãe! apontei-a como ladra comum que me roubara ao nascer!… Lembro-me do olhar de dor e compaixão que me lançou ao despedir-se… Não se queixou, nem reagiu… Apenas contemplou-me, tristemente, com os olhos túrgidos de chorar!…

Nessa altura, a dama que a sustentava afagou-lhe os cabelos em desalinho e buscou reconfortá-la:

– Não se excite. Descanse… descanse…
– Ah! que voz é esta? bradou a moça desvairar-se de angústia.

E, tateando as mãos afetuosas que lhe acariciavam as faces, exclamou, sem vê-las:

– Oh! padre, dir-se-ia que ela se encontra aqui, junto de mim!…

E, voltando para o alto os olhos apagados e súplices, rogava em pranto:

– Ó Deus, não me deixeis encontrá-la, sem que pague os meus débitos!… Senhor, compadecei-vos de mim, pecadora que Vos ofendi, humilhando e ferindo a amorosa mãe que me destes!…

Com o auxílio de duas enfermeiras, porém, a simpática senhora que a acalentava situou-a em leito portátil e fê-la emudecer, à força de inexcedível ternura. Percebendo-me a emotividade, Silas, depois de amparar o serviço de acomodação da doente, explicou:

– A dama generosa que a recolheu nos braços é a genitora que veio ao encontro da filha […]

(*) Por haver cultivado a fé católica romana, imaginava-se ainda diante do sacerdote, acusando-se pela falta que lhe maculou a vida…

Do livro “Ação e Reação”, de André Luiz, psicografado por Chico Xavier (PDF do Livro aqui).

Quem de nós poderia dizer que esta mãe, abandonada pela própria filha, não teria sido ela mesma uma filha que abandonou sua mãe noutra existência corpórea?! Existe doutrina mais consoladora que esta? Que encontra a justiça divina, inclusive, nas maiores “injustiças” do mundo?

Pensemos nisso :´]
Muita paz.

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