A DISCRIMINAÇÃO QUE AFETA A MAIORIA

Geração após geração, o homem se vê entretido em discussões sobre discriminações de raças e castas, bem como, da necessidade de transpô-las. Entretanto, pouco se indaga quanto a veracidade das bases históricas que fundamentam o cerne da visão contemporânea das coisas, dos sistemas econômicos, sociais e políticos que dão corpo às reais discrepâncias, minorias, injustiças e que classificam o que denominamos por exclusão, seja social, seja econômica ou até moral.

251O historicismo, por tantas vezes remodelado pelas queimas de bibliotecas e dizimação de povos e culturas inteiras, torna o homem contemporâneo inapto para identificar com asserto o pensamento filosófico doutras épocas, pois o seu prisma de realidade não abarca os mesmos horizontes de valor ético daqueles tempos. Não se pode compreender um ideal cuja base de sustentação não se possa ver.

Analisando-se os ciclos da civilização humana, é evidente perceber a constante presença da inclinação do homem à corrupção pelo interesse pessoal, cujo reflexo se dá repetidamente nos processos de conquistar, furtar e matar o outro a fim de obter para si.

Um homem vive muito pouco, geralmente menos de cem anos. Talvez, por isso, seja demasiadamente custoso identificar a secular manipulação psico-social-política que impera nas massas humanas, desde a idade média, e mais contundentemente, na era moderna e contemporânea, com a absolutização daquilo que o homem concebe por “história”.

Por desconhecer as bases das “verdades” em que é condicionado a crer, o homem encontra estéril à reflexão, incapaz de aprofundar um pensamento imparcial acerca de suas próprias opiniões, pois, sem que perceba, ele sofre uma esmagadora influência do meio em que vive, e a atmosfera social, econômica e política que são mantidas pelos governos, delimita os horizontes das suas capacidades intelectivas.

As revoluções agrária e industrial, as reformas culturais e políticas, os sistemas econômicos, sejam o cruel e egoísta capitalismo, ou o igualitário comunismo, jamais terão o estigma da justiça enquanto a humanidade não se reformar ética e moralmente. Sistema algum, por perfeito que seja, resiste à corrupção do interesse pessoal.

Os mercados globais, os governos liderados por corporações bancárias e manipulações psico-políticas cegam a consciência histórica e põem o homem numa hipnose coletiva. Então, refém de si próprio, ele é fustigado a se ocupar e se comprazer nas fraquezas que o entretém, que são ofertadas e manutenidas por estes mesmos sistemas, e que o condena à cegueira de si mesmo.

Crê-se caminhar para a igualdade dos direitos humanos, mas porque não se percebe a absurda crescente centralização de poder. Sob o olhar do homem contemporâneo, o camponês medieval é visto como um pobre escravo de seu senhor. E não se dá conta que às imposições da revolução industrial e os hábitos advindos com o sistema capitalista-materialista, fazem-no trabalhar mais do que o camponês, e mais do que precisa, porque ele é “doutrinado” a se medir por aquilo que possui.

Uma nação unida não se permite governar pela opressão dos seus líderes. Para poder ser oprimida, ela precisa, antes, ser individualizada. A criação dos títulos de propriedade foi estratégia brilhante da revolução industrial, porque pôs o homem a competir entre os seus para ter mais, tornando-o individualista. Então, em vez de unir-se ao vizinho, ele compete com ele; em vez de buscar o bem comum, ele busca apenas o seu próprio bem. Assim, uma nação inteira é enfraquecida e guiada pelo interesse dos que a governam.

As elites que governam os governos através das corporações bancárias (privadas) passam despercebidas pelas massas, e o próprio sistema político-fantoche-midiático que representa cada nação do globo, se faz inacessível ao homem comum. Criam-se inúmeros partidos que são, na verdade, ramificações de um partido global único, e que servem para dar aos homens a ilusão da possibilidade de escolha. Fustigam nas massas à competição até no lazer, garantindo assim, a individualização total, e portanto, o controle completo.

Desta forma, num engendramento secular, e não por isso menos pérfido, o abismo que se criou entre a realidade contemporânea e a inverdade dos fatos históricos destroem quaisquer perspectivas de análise comparativa; o homem que não conhece as suas raízes temporais é incapaz de medir-se.

Dominado por suas paixões, o homem tem sido seu próprio algoz, tanto em escala micro, na convivência familiar, como em escala macro, no governo das nações. O egoísmo ganhou status de normal, afinal, “todo mundo é assim”. Os recursos naturais se escasseiam e as nações fervilham em guerras. Ainda não compreendemos o nazareno, quando disse:  “amai ao próximo como a ti mesmo”.

Não basta erradicar as discriminações sociais, de raças, de castas, etc; é preciso, antes, haver um profundo despertar para a realidade que não se faz tangível sem as reformas íntimas da moralidade, da ética, das virtudes. Não há outros caminhos para que se estabeleça o pensamento imparcial face aos ditames sociais, culturais e dogmáticos. Somente então, os processos de cura desta imensa mazela psiquica e moral das massas será combatida.

Em suma, qual é a real importância dada às discriminações de minorias, de tal ou qual grupo, se o homem das maiorias se vê excluído de si mesmo numa secular manipulação psiquica, sustentada pelos sistemas social, cultural e político?

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