A DOR É SANTO REMÉDIO NO COMBATE AO EGOÍSMO

Os atos de abnegação, a caridade inteligentemente interpretada, que não malogra seus frutos, a cordialidade expressada na amizade leal e sincera, são outros tantos aspectos que ascendem ao divino, uma vez que ultrapassam o plano das manifestações habituais.

Aquele que suporta a dor e o sofrimento experimenta o doce benefício da resignação, ao mesmo tempo que engendra a paciência, neutralizando1022 os impulsos do desespero. Além disso, quem já não pensou, nos momentos de dor ou de sofrimento agudo, em ser mais bondoso, generoso e tolerante com os demais?

Não foi e continua sendo a dor o que modifica e modera os temperamentos mais irrefreáveis, os caracteres mais incorrigíveis? Não é o padecimento o que se encarrega de fazer compreender e até corrigir os desastres morais que seus excessos provocam?

Em tais circunstâncias, o homem experimenta sua pequenez e absoluta fragilidade, já que sente que foi tomado por uma força superior a ele, da qual não pode se livrar sem antes pagar o tributo que a lei lhe exige por infração. Ao reconhecer que é dominado por uma força que desconhece, mas que chega a apalpar ao cair em desgraça, coloca sua razão no terreno do transcendente, o que lhe permite admitir que existem influências que, embora não sejam controladas pelo juízo, aparecem exercendo suas funções reguladoras, precisamente ali onde a razão não foi capaz de regular a tempo os excessos do ente humano.

(Livro “O Mecanismo da Vida Consciente”, de Carlos Bernardo González Pecotche)

O REVOLUCIONÁRIO SINCERO

No curso das elucidações domésticas, Judas conversava, entusiástico, sobre as anomalias na governança do povo, e, exaltado, dizia das probabilidades de revolução em Jerusalém, quando o Senhor comentou, muito calmo:

— Um rei antigo era considerado cruel pelo povo de sua pátria, a tal ponto que o principal dos profetas do reino foi convidado a chefiar uma rebelião de grande alcance, que o arrancasse do Trono.

O profeta não acreditou, de início, nas denúncias populares, mas a multidão insistia. “O rei era duro de coração, era mau senhor, perseguia, usurpava e flagelava os vassalos em todas as direções” — clamava-se desabridamente.

Foi assim que o condutor de boa-fé se inflamou, igualmente, e aceitou a idéia de uma revolução por único remédio natural e, por isso, articulou-a em silêncio, com algumas centenas de companheiros decididos e corajosos. Na véspera do cometimento, contudo, como possuía segura confiança em Deus, subiu ao topo dum monte e rogou a assistência divina com tamanho fervor que um Anjo das Alturas lhe foi enviado para confabulação de espírito a espírito.

1016À frente do emissário sublime, o profeta acusou o soberano, asseverando quanto sabia de oitiva e suplicando aprovação celeste ao plano de revolta renovadora. O mensageiro anotou-lhe a sinceridade, escutou-o com paciência e esclareceu:

— “Em nome do Supremo Senhor, o projeto ficará aprovado, com uma condição. Conviverás com o rei, durante cem dias consecutivos, em seu próprio palácio, na posição de servo humilde e fiel, e, findo esse tempo, se a tua consciência perseverar no mesmo propósito, então lhe destruirás
o trono, com o nosso apoio.”

O chefe honesto aceitou a proposta e cumpriu a determinação.
Simples e sincero, dirigiu-se à casa real, onde sempre havia acesso aos trabalhos de limpeza e situou-se na função de apagado servidor; no entanto, tão logo se colocou a serviço do monarca, reparou que ele nunca dispunha de tempo para as menores obrigações alusivas ao gosto de viver. Levantava-se rodeado de conselheiros e ministros impertinentes, era atormentado por centenas de reclamações de hora em hora. Na qualidade de pai, era privado da ternura dos filhos; na condição de esposo, vivia distante da companheira.

Além disso, era obrigado, frequentemente, a perder o equilíbrio da saúde física, em vista de banquetes e cerimônias, excessivamente repetidos, nos quais era compelido a ouvir toda a sorte de mentiras da boca de súditos bajuladores e ingratos. Nunca dormia, nem se alimentava em horas certas e, onde estivesse, era constrangido a vigiar as próprias palavras, sendo vedada ao seu espírito qualquer expressão mais demorada de vida que não fosse o artifício a sufocar-lhe o coração.

O orientador da massa popular reconheceu que o imperante mais se assemelhava a um escravo, duramente condenado a servir sem repouso, em plena solidão espiritual, porquanto o rei não gozava nem mesmo a facilidade de cultivar a comunhão com Deus, por intermédio da prece comum.

Findo o prazo estabelecido, o profeta, radicalmente transformado, regressou ao monte para atender ao compromisso assumido, e, notando que o Anjo lhe aparecia, no curso das orações, implorou-lhe misericórdia para o rei, de quem ele agora se compadecia sinceramente. Em seguida, congregou o povo e notificou a todos os companheiros de ideal que o soberano era, talvez, o homem mais torturado em todo o reino e que, ao invés da suspirada insubmissão, competia-lhes, a cada um, maior entendimento e mais trabalho construtivo, no lugar que lhes era próprio dentro do país, a fim de que o monarca, de si mesmo tão escravizado e tão desditoso, pudesse cumprir sem desastres a elevada missão de que fora investido.

E, assim, a rebeldia foi convertida em compreensão e serviço.

Judas, desapontado, parecia ensaiar alguma ponderação irreverente, mas o Mestre Divino antecipou-se a ele, falando, incisivo:

— A revolução é sempre o engano trágico daqueles que desejam arrebatar a outrem o cetro do governo. Quando cada servidor entende o dever que lhe cabe no plano da vida, não há disposição para a indisciplina, nem tempo para a insubmissão.

(Jesus no Lar, Pelo Espírito Neio Lúcio – Franciso C. Xavier)

POR QUE QUEREMOS SEMPRE MAIS?

Por que nos sentimos tristes quando não podemos ter o que queremos? Por que haveríamos necessariamente de ter o que desejamos? Acreditamos ser nosso direito, não é? Mas já nos perguntamos do porquê do desejo de possuir o que queremos, quando milhões não conseguem possuir sequer o que necessitam?

Há a nossa necessidade de alimento, roupa e abrigo; mas não estamos satisfeitos com isso. Queremos muito mais. Queremos sucesso, respeito, queremos ser amados e considerados; queremos ser poderosos, queremos ser poetas famosos, oradores invejados, diretores, presidentes. Por quê? Já refletiram isso? Por que desejamos todas essas coisas?

1012Não que devamos ficar satisfeitos com o que somos, não é o que quero dizer, porquanto isso seria uma tolice, uma estagnação horrível. Mas por que essa constante ânsia por mais, mais e mais? Essa inquietação indica que estamos insatisfeitos, descontentes; mas com quê? Com o que somos? Eu sou isto, não gosto do que sou, então quero ser aquilo. Penso que parecerei muito melhor num novo casaco, ou um novo carro, então eu o desejo.

Bem, estou insatisfeito com aquilo que eu sou e creio que posso escapar deste descontentamento adquirindo mais coisas, mais poder e assim por diante. A insatisfação está em mim, naquilo que eu sou, não está? E eu simplesmente cobri esta insatisfação de roupas, de poder, de carros; mas a insatisfação continua lá, porque ela está naquilo que eu sou e não nas coisas que utilizo.

Mesmo assim, sem saber o que sou, e saciando os interesses do corpo, dos vícios, da vaidade, da sensualidade e da ambição, eu consigo ser falsamente feliz por algum tempo. Mas virá, cedo ou tarde, a tristeza, porquanto nem o dinheiro, nem a saúde, nem a beleza, nem mesmo o corpo físico são patrimônios imperecíveis.

Então, a pessoa infeliz, não podendo mais se revestir de beleza, ou de saúde, ou de posses e vaidades, ao investigar o fundo de sua própria dor, verificará que ela é muito pequena, vazia e limitada, porque têm lutado para adquirir, para vir a ser aquilo que ela quer ser, mas por meio de coisas estranhas àquilo que ela é! E essa luta para adquirir, para se tornar alguma coisa que não se é, é a causa do sofrimento existente em todos os graus sociais.

Sem compreender o que somos, estaremos inclinados à competição alienada para nos cobrirmos de adornos, posses, poder e posições, e contudo, permaneceremos angustiados, incapazes de preencher o vazio resultante da fome que não sabemos saciar, porque não sabemos o que nós somos.

Mas, se começarmos a compreender aquilo que realmente somos, e se nos aprofundarmos cada vez mais nisso, verificaremos que algo completamente diferente acontecerá.

(Releitura do texto original “O VERDADEIRO OBJETIVO DA VIDA”, de Jiddu Krishnamurti)

CHICO, ASSASSINARAM MINHA FILHA DE 5 ANOS!

O médium baiano Divaldo Pereira Franco, conta uma emocionante história em uma de suas palestras. Certo dia, um casal o procurou para contar um triste episódio de suas vidas. Contou-lhe a esposa:

“Éramos felizes com nossos seis filhos. Entre eles nossa garotinha de cinco anos que chamava-se Margarette. Até que um dia, uma terceira personagem apareceu em nossas vidas. Meu marido, homem sempre bom, atencioso, excelente pai, não reagiu às circunstâncias e, lentamente, trocou o nosso lar por outro. Começou a visitar essa criatura, a diminuir a constância para conosco, enquanto aumentava a sua presença junto a ela. Deixou de vir à casa. Passou a estar conosco apenas periodicamente. Nossa Margarete, a quem ele tanto amava, passou a murchar como uma flor de estufa que perdesse a vitalidade. Um ano se passou terrível. Iniciamos o processo de desquite para o futuro divórcio. Eu tentava contornar o assunto. Mas Margarette chorava e não dizia nada. Quando ele chegava, tomava-lhe as mãos pequeninas e dizia-lhe:

“Meu bem, quando você crescer, quando compreender o mundo e souber de todas as coisas duras da vida, se não puder perdoar alguma coisa má, ao menos desculpe, sim? Você me promete?”

Margarette respondia dizendo:

“Prometo, papai.”

10341977_887830101329930_5109891621962434188_nEla não cansava de implorar que ele voltasse a dormir em casa. No tormento em que se debatia nos conflitos de consciência, meu esposo iniciou o retorno. Vinha aos sábados e ia-se aos domingos à tarde. Depois já aparecia no meio da semana. Passou a dormir e a fazer as refeições em casa. Fez a viagem de volta, o retorno ao lar. Até que me pediu perdão e permissão para voltar. Eu aceitei. Quando tudo parecia voltar ao normal, nossa Margarette, sumiu na saída da escola. Nenhuma notícia. Percorremos a cidade enlouquecidos. Pronto-socorro, hospitais, necrotérios, rodoviária, nada . . . Dias após, crianças encontraram o corpo de nossa filhinha Margarete em matagal. Despedaçado, em putrefação. A polícia instaurou inquérito. Quem poderia ser? De suspeita em suspeita chegou-se à antiga companheira de meu marido. Levada a interrogatório severo, confessou:

“Matei! Mataria outra vez, mil vezes, porque ela me desgraçou. Tomou de mim o homem a quem eu amava. Para vingar-me, raptei-a e matei-a, para ela nunca mais fazer isso com ninguém.”

Enlouquecido e desesperado, meu marido queria ir ao cárcere decepar as mãos da criminosa e matar-se depois . . . Foi neste estado de ódio, que ouvimos falar de um homem bom como a água refrescante da fonte: Francisco Cândido Xavier. Fomos procurá-lo, e quando ele passou perto de nós gritei:

“Chico, mataram minha filha!”

Ele passou a mão na minha cabeça e disse:

“Meu bem, ninguém mata ninguém. Sua filhinha vive. Nossa Margarete está aqui. Foi trazida pela avozinha. Acalme-se. Você não confia em Deus?”

Sentei-me. Na madrugada de sábado, chamaram pelo meu nome e pelo do meu marido. Era uma mensagem de nossa filha Margarete. Não sei até hoje o que senti. A mensagem dizia:

“Mãezinha, meu querido papai! Vim, para dizer-lhes que estou viva! Se alguém pensou em me magoar, não conseguiu, papai. Não sei explicar a vocês como tudo aconteceu. Eu me recordo que saía do Jardim de Infância, quando uma pessoa me chamou. Segurou-me, fez-me entrar no carro. Eu não sei o que me aconteceu, mas ninguém me magoou. Não fique triste, papai. Não senti nada. Só saudade. Eu dormi. Se cortaram o meu corpo, não vi. Soube depois. Se ficou todo quebradinho, também não vi. Dormi e quando acordei vovó Felicidade me acarinhava, pedindo que eu acordasse. Eu perguntei o que fazia ali, e perguntei por vocês. Ela me explicou que não poderia vê-los por enquanto, porque eu estava num hospital recebendo tratamento. Chorei muito com saudade de vocês (e citou o nome dos irmãos). Naquele momento, entrou uma moça bonita, bem vestida, parecendo professora que se apresentou dizendo ser a tia Lídia, sua irmã mamãe, dizendo estar ali para substitui-la. Foi então que ela me contou que estava morta e eu também. Depois pediu que eu dormisse. Voltei a dormir. Quando acordei, titia e vovó me disseram que vocês estavam sofrendo muito. Eu pedi para vê-los, para abraçá-los e vi você com ódio, papai. Paizinho, você se lembra do que me dizia? – ‘Se não puder perdoar, pelo menos desculpe’. Paizinho, desculpe! Ninguém nos fez nenhum mal. Eu tinha que voltar para cá e voltei. Mas nunca, nunca mais nos separaremos. Vovó está dizendo que devemos perdoar, e se não pudermos, temos o dever de desculpar. Voltarei outro dia, papai. Eu vim pedir-lhes que desculpem. Paizinho, até já! Mamãe querida, você que é mãe, me compreende melhor, portanto, perdoe! Beija-os a sempre sua, Margarete.” O senhor pode imaginar o que sentimos . . . Demo-nos as mãos. Voltamos para casa. É ainda difícil perdoar, mas pelo menos, a gente está tentando desculpar . . .”

Disse Jesus: ” Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; mas, se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados.” (Mateus, VI – 14-15)

Por Rosalina Malzone (Centro: Allan Kardec/Rio Preto-SP)

SOBRE ÉTICA E VERGONHA NA CARA

Em 2012, durante uma corrida na Espanha, o queniano Abel Mutai, medalha de outro nos três mil metros, estava a pouca distância da linha de chegada e, confuso com a sinalização, parou para posar para fotos pensando que já havia cumprido a prova. Logo atrás vinha outro corredor, o espanhol Iván Fernandez Anaya. E o que fez ele? Começou a gritar para que o queniano ficasse atento, mas este não entendia que não havia ainda cruzado alinha de chagada. O espanhol, então, o empurrou em direção à vitória.

Há uma coisa maravilhosa que aconteceu depois. Com a imprensa ali inteira presente, um jornalista, aproximando o microfone do corredor espanhol, perguntou: “Porquê o senhor fez isso?”. O espanhol replicou: “Isso o que?”. Ele não havia entendido a pergunta – e o meu sonho é que um dia possamos ter um tipo de vida comunitária em que a pergunta feita pelo jornalista não seja mesmo entendida – , pois não pensou que houvesse outra coisa a ser feita q não aquilo que ele fez.

1009O jornalista insistiu: “Mas por que o senhor fez isso? Por que o senhor deixou o queniano ganhar?”. “Eu não deixei ele ganhar. Ele ia ganhar.” O jornalista continuou: “Mas o senhor poderia ter ganhado a prova! Estava na regra e ele não notou…”. “Mas qual seria o mérito da minha vitória, qual seria a honra do meu título se eu deisasse que ele perdesse?”.

E continuou, dizendo a coisa mais bonita que eu li envolvendo a questão da ética do cotidiano: “Se eu ganhasse desse jeito, o que ia falar para a minha mãe?”.

É curioso, mas até em assalto a banco, já houve situações em que, com toda a polícia em volta fazendo o cerco, o sujeito não se rende. Então a polícia chama a mãe dele. Ela chega com a bolsinha no braço, e diz: “Sai daí, menino!” E ele sai.

Como mãe é matriz de vida, fonte de vida, ela é a última pessoa que se quer envergonhar. Porque ética tem a ver com decência e vergonha na cara. Não há nada mais vergonhoso do que uma pessoa fugir ou praticar uma atitude vergonhosa diante de alguém que ela ama.

Se houvesse mais afeto entre as pessoas, se houvesse mais preocupação em não desonrar aqueles que nos querem bem, se pudéssemos estender nosso perdão e compreensão para além das nossas próprias famílias, as pessoas de uma sociedade se tratariam com mais fraternidade, e teríamos, provavelmente, uma sociedade melhor, com relações mais honestas.

Em grande medida, quando pensamos em apodrecimento ético, referimo-nos ao ressecamento dos afetos pelo mesquinho interesse pessoal, pelo lucro a qualquer custo. A lógica competitiva e alienada pelo resultado se impõe de tal forma que os meios de se atingir o objetivo acabam sendo sucateados como uma questão menor. Vendo que os outros pensam somente em si mesmos, somos compelidos a nos ocupar apenas conosco.

Sem inclinações a heroicas virtudes e incapazes de transcender nossos próprios umbigos, temos transformado a convivência em sociedade num misto quase insuportável de desconfiança, interesse e, consequentemente, de indiferença e intolerância.

A quem inculpar este resultado, senão a nós mesmos, que buscamos incessantemente esmagar uns aos outros?

(Contém trechos do livro “Ética e Vergonha na cara”, de Mário Sérgio Cortella e Clovis de Barros Filho)

MATANÇA, AMOR E VEGETARIANISMO

A maioria de nós tem a preocupação de não matar, e esse é realmente o nó da questão: Não matar. Mas, se comemos carne ou peixe, para evitar o ato de matar, vamos ao açougue e transferimos a culpa para o magarefe do matadouro, furtando-nos do problema. Todavia, esta é uma visão muito superficial da questão, cujo cerne é muito mais profundo.

Se já não desejamos matar animai1005s para abastecer o nosso estômago, ainda não nos repugnamos ao apoiar governos que estão organizados para matar. Ora, todos os governos soberanos do mundo se baseiam na violência, e, por isso, precisam de exércitos, de marinha e de força aérea.

Não nos horrorizamos em apoiá-los, mas fazemos objeção à terrível calamidade de se comer um bife! Veja bem como isso é ridículo. Investigai a mentalidade de um homem que é nacionalista, que não repudia a explorarão nem a impiedosa destruição de seres humanos de outras nações, que não repudia o aborto, que considera insignificante o morticínio de seus semelhantes, mas que tem “escrúpulos” a respeito do que lhe entra pela boca, sem com isso incomodar-se com as calúnias e agressões que dela saem.

Afinal de contas, o problema diz respeito não somente à matança de animais, mas à matança de seres humanos! Podemos nos abster de nos alimentarmos dos animais e sentir compaixão do seu sacrifício tão-somente para agradar o nosso paladar, mas o que tem realmente importância nesta questão é o problema da exploração e da matança, não apenas de entes humanos em tempos de guerra, mas da maneira como exploramos as pessoas, como tratamos os nossos companheiros de trabalho, os nossos empregados, como os olhamos de cima para baixo, como inferiores.

Provavelmente não estamos dando atenção a isso, porque está muito perto de nós e requer esforço de nossa parte. Julgar e condenar é muito mais fácil que compreender e respeitar.

Preferimos, geralmente, discutir a respeito de Deus, da reencarnação, do vegetarianismo, e competimos para ter razão, para saciar a nossa necessidade mesquinha de estarmos certos. Se assim agimos, pouco importa se ainda comemos carne.

Sim, o massacre dos animais em nome do estômago é horroroso. Mas não basta combater o efeito sem examinar o agente causador da agressão aos animais, da violência na convivência, da indiferença, da intolerância, da ambição e da competitividade que ressecam o coração e eliminam a paz da vida em sociedade.

Se não percebemos o quanto estamos definhando em valores éticos para a coletividade, se achamos que este “modus vivendi” atual é normal, é sinal de que estamos alienados, e que mudanças radicais, dentro de cada um de nós, se faz urgente.

(Contém fragmentos do livro de conferências compiladas “Nosso Único Problema”, de Jiddu Krishnamurti)

https://www.youtube.com/watch?v=DJsCIP55Tbk

LIBERDADE X PRESSÃO SOCIAL

CapturarViver de aparência é acreditar naquilo que a sociedade diz ser importante.

“Você tem que ter o aparelho celular x, a roupa de marca y, o carro do ano. Felicidade é ter corpo de boneca ou de músculos, é mostrar que está na moda, é ter posição social de destaque!”

Será? Vejamos a pergunta abaixo, que Allan Kardec faz aos espíritos, a esse respeito:

L.E, p. 863. Os costumes sociais não obrigam, frequentemente, o homem a seguir determinado caminho em vez de outro, submetendo-o ao controle da opinião geral, quanto à escolha de suas ocupações? O que se chama respeito humano não é um obstáculo ao exercício do livre-arbítrio?

Resposta dos espíritos:

São os homens quem fazem os costumes sociais, e não Deus. Se se submetem a estes costumes, é porque isso lhes convêm, e o fazem por um ato de livre-arbítrio, pois, se o quisessem, poderiam libertar-se deles.

[Ora, a sociedade não nos exige trocar de carro sem necessidade, nem a comprar roupas e sapatos dos quais não precisamos. Ninguém é obrigado a dar presentes materiais para manifestar o afeto para com aqueles que ama.]

Por que, então, se queixam? Não são os costumes sociais que os homens devem acusar, mas o seu tolo amor-próprio de que vivem cheios e que os faz preferirem morrer de fome a infringi-los.

[Há quem, em lamentável estado de necessidade, recusa uma oferta de trabalho, se esta está aquém da posição que outrora ocupava.]

Não. Ninguém leva em conta esse sacrifício feito à opinião do senso comum, que mede as pessoas pelos bens que possuem; ao passo que Deus leva em conta o sacrifício que se faz das vaidades de aparência e ilusões do destaque social.

Isto não quer dizer que seja preciso afrontar sem necessidade a opinião pública, como fazem alguns em que há mais originalidade do que verdadeira filosofia.

Extraído do Programa “Alimento para a Alma”, tema “Liberdade x Pressão Social”, acessível aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=TquSLvsfGJo&list=PL32A80E92AA6D72E1&index=18

O APEGO MATERIAL NOS PRENDE À DECOMPOSIÇÃO CADAVÉRICA

Os companheiros encarnados, em obediência à tradição, atiravam a clássica pazinha de cal sobre o caixão entregue à profunda cova. Impressionado com os soluços que ouvia em sepulcro próximo, fui irresistivelmente levado a fazer uma observação direta. Sentada sobre a terra fofa, infeliz mulher desencarnada, aparentando trinta e seis anos, aproximadamente, mergulhava a cabeça nas mãos, lastimando-se em tom comovedor.

Compadecido, toquei-lhe a espádua e interroguei:

– Que sente, minha irmã?

– Que sinto? – gritou ela, fixando em mim grandes olhos de louca – não sabe? Ajude-me, por piedade! Não sei diferençar o real do ilusório… Conduziram-me à casa de saúde e entrei neste pesadelo que o senhor está vendo.

Tentava erguer-se, debalde, e implorava, estendendo-me as mãos:

– Cavalheiro, preciso regressar! Conduza-me, por favor, à minha residência! Preciso retornar ao meu esposo e ao meu filhinho!… Se este pesadelo se prolongar, sou capaz de morrer!… Acorde-me, acorde-me!…

– Pobre criatura! – exclamei, distraído de toda a curiosidade, em face da compaixão que o triste quadro provocava – Ignora que seu corpo voltou ao leito de cinzas! Não poderá ser útil ao esposo e ao filhinho, em semelhantes condições de desespero. Olhou-me, angustiada, como a desfazer-se em ataque de revolta inútil. Mas, antes que explodisse em rugidos de dor, acrescentei:

– Já orou, minha amiga? Já se lembrou da Providência Divina?

– Quero um médico, depressa! só ouço padres! – bradou irritadiça – Não posso morrer… Despertem-me! Despertem-me!

– Jesus é nosso médico infalível – tornei – e indico-lhe a oração como remédio providencial para que Ele a assista e cure.

A infeliz, entretanto, parecia distanciada de qualquer noção de espiritualidade. Tentando agarrar-me com as mãos cheias de manchas estranhas, embora não me alcançasse, gritou estentoricamente:

– Chamem meu marido! Não suporto mais! Estou apodrecendo!… Oh! quem me despertará?

1001Compreendi, então, que a desventurada sentia todos os fenômenos da decomposição cadavérica e, examinando-a detidamente, reparei que o fio singular, sem a luz prateada que o caracterizava em Dimas, pendia-lhe da cabeça, penetrando chão a dentro. Ia exortá-la, de novo, recordando-lhe os recursos sublimes da prece, quando de mim se aproximou simpática figura de trabalhador, informando-me, com espontânea bondade:

– Meu amigo, não se aflija.

A advertência não me soou bem aos ouvidos. Como não preocupar-me, diante de infortunada mulher que se declarava esposa e mãe? Como não tentar arrancá-la à perigosa ilusão? Não seria justo consolá-la, esclarecê-la? Não contive a série de interrogações que me afloraram do raciocínio à boca. Longe de o interpelado perturbar-se, respondeu-me tranquilamente:

– Compreendo-lhe a estranheza. Deve ser a primeira vez que freqüenta um cemitério como este. Falta-lhe experiência. Quanto
a mim, sou do posto de assistência espiritual à necrópole.

Desarmado pela serenidade do interlocutor, renovei a primeira atitude. Reconheci que o local, não obstante repleto de entidades vagabundas, não estava desprovido de servidores do bem.

– Somos quatro companheiros, apenas – prosseguiu o informante –, e, em verdade, não podemos atender a todas as necessidades aparentes do serviço. Creia, porém, que zelamos pela solução de todos os problemas fundamentais. Apesar de nosso cuidado, não podemos todavia, esquecer o imperativo de sofrimento benéfico para todos aqueles que vêm dar até aqui, após deliberado desprezo pelos sublimes patrimônios da vida humana.

Nossa desventurada irmã permanece sob alta desordem emocional. Completamente louca. Viveu trinta e poucos anos na carne, absolutamente distraída dos problemas espirituais que nos dizem respeito. Gozou, à saciedade, na taça da vida física. Após feliz casamento, realizado sem qualquer preparo de ordem moral, contraiu gravidez, situação esta que lhe mereceu menosprezo integral. Comparava o fenômeno orgânico em que se encontrava a ocorrências comuns e, acentuando extravagâncias, por demonstrar falsa superioridade, precipitou-se em condições fatais.

Chamada ao testemunho edificante da abelha operosa, na colméia do lar, preferiu a posição da borboleta volúvel, sequiosa de novidades efêmeras. O resultado foi funesto. Findo o parto difícil, sobrevieram infecções e febre maligna, aniquilando-lhe o organismo. Soubemos que, nos últimos instantes, os vagidos do filhinho tenro despertaram-lhe os instintos de mãe e a infortunada combateu ferozmente com a morte, mas foi tarde. Jungida aos despojos por conveniência dela própria, tem primado aqui pela inconformação. Vários amigos visitadores, em custosa tarefa de benefício aos recém-desencarnados, têm vindo à necrópole, tentando libertá-la.

A pobrezinha, porém, após atravessar existências de sólido materialismo, não sabe assumir a menor atitude favorável ao estado receptivo do auxilio superior. Exige que o cadáver se reavive e supõe-se em atroz pesadelo, quando nada mais faz senão agravar a desesperação. Os benfeitores, desse modo, inclinam-se à espera da manifestação de melhoras íntimas, porque seria perigoso forçar a libertação, pela probabilidade de entregar-se a infeliz aos malfeitores desencarnados.

Indiquei, porém o laço fluídico que a ligava ao envoltório sepulto e observei:

– Vê-se, entretanto, que a mísera experimenta a desintegração do corpo grosseiro em terríveis tormentos, conservando a impressão de ligamento com a matéria putrefata. Não teremos recursos para aliviá-la?

– Quem sabe chegou o momento? Não será razoável cortar o grilhão?

– Que diz? – objetou, surpreso, o interlocutor – Não, não pode ser! Temos ordens.

– Porque tamanha exigência? – insisti.

– Se desatássemos a algema benéfica, ela regressaria, intempestiva, à residência abandonada, como possessa de revolta, a destruir o que encontrasse. Não tem direito, como mãe infiel ao dever, de flagelar com a sua paixão desvairada o corpinho tenro do filho pequenino e, como esposa desatenta às obrigações, não pode perturbar o serviço de recomposição psíquica do companheiro honesto que lhe ofereceu no mundo o que possuía de melhor. É da lei natural que o lavrador colha de conformidade com a semeadura. Quando acalmar as paixões vulcânicas que lhe consomem a alma, quando humilhar o coração voluntarioso, de modo a respeitar a paz dos entes amados que deixou no mundo, então será libertada e dormirá sono reparador, em estância de paz que nunca falta ao necessitado reconhecido às bênçãos de Deus.

A lição era dura, mas lógica.

(Francisco Cândido Xavier – Obreiros da Vida Eterna – pelo Espírito André Luiz)

SÓ A HUMILDADE NOS TORNA APTOS A QUALQUER TRABALHO DIGNO

Alcione, jovem governanta na casa dos Davenport, era obrigada a tratar de todos os demais serviços leves da casa, inclusive a costura, porquanto Dona Susana não tolerava a sua postura de moça simples e amável, e procurava um pretexto para despedi-la. No entanto, Alcione estava sempre calma e disposta a ceder aos seus caprichos com suave humildade, humildade esta que causava irritação em Susana. Por mais que elevasse a voz, em ordens intempestivas, Alcione tratava-a respeitosamente, em atitude de nobre serenidade.

Acrescentando-lhe outras ocupações, além dos deveres de governanta e preceptora, certa vez, Susana lhe disse com tom impositivo:

— Alcione!
— Senhora!…
— Hoje é necessário que substitua a lavadeira, que se encontra doente.
— Sim, senhora, vou agora mesmo ao tanque lavar as roupas.

— Beatriz, a filhinha de Susana, que a tudo ouvira, não se conformara coma atitude da mãe, e procurou o pai (o Sr. Davenport), dizendo-lhe:

— Papai, a mamãe vive perseguindo Alcione. A pobre coitada tem que fazer serviços pesados, e isso não é tarefa para ela.

— Obrigado, filha, por me alertar. Vou já advertir tua mãe.

1000Momentos depois, Alcione, ao ver a Sr. Susana chorando por ter sido censurada em suas atitudes, de imediato procurou o senhor Davenport, e disse-lhe em tom delicado:

— Meu senhor, desculpe a intromissão, mas a pequena Beatriz equivocara-se. Não foi Dona Susana quem me mandou substituir a lavadeira. Eu mesma, sabendo que ela adoecera, me ofereci para a lavagem de roupa. Não se preocupe, pois sou bastante habituada aos serviços gerais.

Beatriz não entendeu bem a atitude de Alcione, que lhe explicou:

— Beatriz, não pense que a lavagem de roupa é um serviço pesado. É tão sagrado para todos nós como qualquer outro serviço.

— Mas Alcione, nós temos criadas que cuidam disso, não é serviço teu.

— Minha querida, devemos estar aptos para qualquer trabalho digno.

— Mas a cada serviçal cabe a sua tarefa, não é?

— E não está errada ao pensar assim. Contudo, ao agirmos de maneira solícita, estaremos ampliando as nossas experiências em qualquer trabalho honesto. Sei que você aprecia as lições de Jesus, não é? Pois bem! O Mestre Divino carpintejou na modesta oficina de Nazaré, foi exegeta da Lei perante os doutores de Jerusalém, serviu o vinho da amizade nas bodas de Caná, foi médico da sogra de Pedro, enfermeiro dos paralíticos, guia dos cegos, amigo das crianças, e também servo dos discípulos, quando lhes lavou os pés no cenáculo. E nada obstante o contraste e a diversidade de tantas tarefas, Jesus nunca se ausentou do lugar sublime que lhe compete na Criação, nem deixou de ser o nosso Salvador, em todos os momentos.

Beatriz, filhinha de Susana, entre admirada e comovida, observou:

— Tudo isso é verdade! Como não pude compreender antes?

E, em seguida, começou a ajudar Alcione no trabalho do tanque…

(Livro “Renúncia” – Chico Xavier – pelo Espírito Emmanuel)

A NECESSIDADE NOS ENSINA GENTILEZA E DOÇURA

Alcione e seu irmão, a fim de angariarem recursos ao próprio sustento, tateavam singelo violino e cantarolavam para os transeuntes da via pública. Então, quase ao fim do dia, o irmãozinho disse:

— É bem duro pedir, não acha, Alcione?

— Não é tanto assim — respondeu-lhe a irmã resignada. A necessidade, Robbie, às vezes nos ensina a afabilidade e a doçura com o próximo. Nunca reparaste que as crianças muito independentes costumam ser caprichosas e ásperas? Assim também, já crescidos, é útil que venhamos a precisar do concurso de outros, por tornarmo-nos mais carinhosos, mais sensíveis ao afeto fraternal…

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— Isso é verdade — concordou o pequeno —, são raros os meninos brancos que me tratam bem.

— É porque ainda não sabem o que é a vida. Se um dia a necessidade lhes bater à porta, compreenderão, talvez imediatamente, que somos todos irmãos. Suponho que Deus, sendo tão bom, facultou a pobreza e a doença ao mundo para que aprendêssemos a sua divina lei de fraternidade e auxílio mútuo.

Robbie, muito admirado, ponderou:

— Desejava sentir essas coisas conformado, assim como te vejo, mas a verdade é que, quando me humilham, sofro muito. Faço enorme esfôrço para não reagir com más palavras e confesso que, por vezes, se não fosse a mão doente, agrediria alguns meninos.

— Não agasalhes esses pensamentos, procura fazer exercícios mentais de tolerância. Reflete, contigo mesmo, como tratarias as crianças negras se fosses branco, imagina qual seria tua atitude com os doentes, se fosses completamente são.

O pequeno violinista meditou longamente e respondeu muito sério:

— Tem razão.

— Sem dúvida, isto que aqui te digo requer muito esforço, porque só o pecado oferece portas largas ao nosso espírito. A virtude é mais difícil.

(Livro “Renúncia” – Chico Xavier – pelo Espírito Emmanuel)